Superbonder

Eu que amava

(amo? amava? amaria?)

seus cacos

Cada pequeno

(mínimo? microscópico?)

estilhaço

Esfolava os dedos tentando juntar cada

pedaço

(sangrava, cantava, louvava)

Sonhava devaneios em cola quente

(superbonder, sapateiro, pritt)

Tentando chegar no seu

inteiro

(todo, miragem, mundo)

 

Ausência

Se você não vem eu fico vazia

Tem espaço vago

Na garagem

Na cama

Na cozinha

 

De que adianta

Todo esse espaço

Sem (a sua) companhia?

 

Se você não vem a coberta aumenta

O tempo alarga

O chocolate não acaba

 

Sem você é silêncio

Ou o som da TV

Páginas do livro virando

Até a madrugada finalmente

Amanhecer

 

Sem você o sono corre

Mas não alcança

O coração bate

Mas não dança

Melância

O restaurante estava lotado hoje. Desde de manhã tinha sido frenético, como se eu estivesse em plena São Silvestre. Só mais um kilometro, eu fiquei pensando mentalmente enquanto cortava os filés. Só mais um kilometro, enquanto preparava o Beurre Blanc. Só mais um quilômetro, enquanto empratava o cherne com purê de banana verde. E assim foi. Agora finalmente posso sentar e respirar de novo. Sensação de dever cumprido, mas bem sei que amanhã começa tudo de novo.

Não estou com apetite para comida de verdade. Depois de tantas horas só pensando e executando os pratos elaborados do restaurante, acho que meu cérebro está rejeitando qualquer coisa que pareça gourmet. Além disso tem o calor; tá mesmo um calor infernal e dentro da cozinha é sempre pior ainda. Meio que tira a fome, essa temperatura inóspita.

Fico sentada aqui na ilha central da cozinha, olhando os lavadores terminarem a louça para amanhã, tentando decidir se como alguma coisa ou se simplesmente vou pra casa. E então vejo a melancia no cantinho da bancada de inox.

A melancia está aberta, cortada na metade. Eu consigo ver sua casca verde, seu miolo rosa e suas sementes pretas. Tem poucas sementes essa melancia. As sementes parecem gotinhas de nanquim espalhadas com precisão geométrica, como se alguém tivesse medido com régua e compasso, e depois pintado uma a uma. É arte essa fruta. Não tem aquele negócio de que a natureza tem a sequência de Fibonacci em várias coisas e por isso a gente acha essas coisas mais harmônicas? Deve ter sequência de Fibonacci nessa melancia.

Levanto e pego uma faca afiada no faqueiro, a minha faca. Pego a melância, que é mais leve do que parece, e corto exatamente na metade. A faca desliza fácil até chegar na casca, onde eu tenho que fazer um pouco mais de esforço. Vou cortando com cuidado, e no final vejo que cortei ela toda em cubinhos perfeitos, por hábito mesmo. Depois de um tempo trabalhando na cozinha, certas coisas viram automáticas.

Coloco os cubinhos em um potinho bonito de cerâmica e me sento perto da janela, um copo de água com gelo do lado. O vento sopra quente no meu rosto e eu como o primeiro cubinho rosa. Tem gosto de infância, de verão, de horas a fio sem nada e tudo pra fazer.

Aquele pedacinho esponjoso me leva de volta à casa do Lipe. Cada mordida solta uma aguinha doce e me lembro da tia Gisele me entregando um pote enorme de plástico cheio de melancia, enquanto a gente ficava estendido secando no deque da micro piscina deles. De comer um atrás do outro enquanto o sol queimava meu rosto, o líquido escorrendo pelo cantinho da boca. O Lipe rindo da minha falta de graça, ou como diria a minha mãe, de compostura. Modos, Mariana. Modos.

Como um cubinho menos doce, aquela parte mais esbranquiçada que fica antes da casca. Lembro do Lipe falando que melancia era isopor com adoçante. E de como a gente riu dessa besteira, como se fosse genial. Era tão bom ter dez anos!

Naquela época a gente ainda contava tudo um pro outro. Iamos para todos os lugares juntos, irmãos siameses. Um, a sombra do outro. Um dia você era Um, no outro Sombra. Naquela época, eu não podia conceber passar um dia inteiro sem falar com ele. Era tão necessário que as vezes, se eu pensava alguma coisa, era como se aquele pensamento não existesse se o Lipe não soubesse dele. Ele era o meu portal para a realidade, e eu achava que ia parar de existir se ele não estivesse ali. A gente existe sem a nossa sombra? Ou a sombra existe sem a gente? Tem alguma diferença entre um e outro?

 

 

Matemática

Esse substantivo me pertence

Esse adjetivo é meu eixo

Esse verbo inflexível

É meu para todo sempre

 

Pode parecer irracional

Mas cada frase é tangente

Se colocar cada uma no plano certo

Quem sabe nossas retas não se encontram no infinito?

 

E se a nossa menor distância não fosse um ponto

E sim uma conjunção aditiva

&

Amor em capa dura

capa-web

Meu amor não é leve

É rígido, espesso

Suas páginas de pólen

São firmes, têm alta gramatura

Cada letra tem relevo

 

Meu amor não transborda

É organizado em parágrafos perfeitos

Epígrafes elegantes em

Times New Roman

Cheias de cultura

 

Meu amor tem pausas de suspense

Delírios descritivos em rima

Sentenças adversativas

Reviravoltas e

Pontos de clímax

 

Meu amor é confesso

Tem métrica, contexto

Não se espalha em haicais perdidos

Tem orgulho

Da assinatura

 

Meu amor é constante

Espera em Proust

E Graciliano Ramos

Conhece todos os círculos de Dante

 

Ah, meu amor é por extenso

Mesmo na fúria homicida

Se derrama em quixótica poesia

Volumes em sequência

Empoeirando na estante

Batman

Hoje eu começo a colocar um conteúdo diferente aqui no blog: pânico, terror e aflição! Essa semana é um texto que eu fiz enquanto estava participando de uma Oficina de Contos aqui em Floripa. Espero que vocês gostem (e me dêem um feedback, please! Para um designer postar um texto é um momento de medinho intenso…)

batman-web

Quando cê faz uma aposta, cê não sabe mas está mudando o rumo de sua vida. É complicado de entender, mas deve de ser verdade. Quando cumquem te desafia pra uma aposta, só isso já é um ato definidor de quem você é, vai ser. Se cê aceita, cê já é voraz definidor, destemido desbravador das ocultesas incertas. Se não aceita é covarde, amedrontado, duvidoso. Não é digno de confiança quem não confia em sua própria pessoa o tanto pra se fazer uma aposta.

Por isso, tal e coisa, cá estou eu. Fantasia de Homem-Morcego em plena luz do dia, pois que, como homem desbravador destemido não há outra maneira de exercer. De certo com o que foi combinado entre nós, apostadores, tenho que permanecer ficando aqui, em plena calçada da fama das estrelas americanas. A combinação foi clara, e logo então ficarei aqui por uma hora, ajudando os pobres e indefesos, tal qual como Batman mesmo faria. As velhinhas não se alentaram quando ofereci assistência para atravessar a rua, que era de apropriado para um super herói como eu. Me olharam de esguelha, e empunharam os guarda-chuvas em riste maior.

De verdade essa chuva é um presente, como que tu sabe. Essa roupa de morcegada deve de dá até assadura quando tá uma temperatura mais pegada. Pois então, alento de chuva boa. Ensaiei até uma dançatura aqui quando começou a gotejar. Umas pessoas pararam até pra olhar, mas não me fiz de rogado. Arrê, todo mundo passeja, até mesmo os super-heróis, certeza.

Enquanto passo meus minutos em paciência, já me pego com a cabeça em Lucinha, como que hora e hora de novo. Amanhã vou me com ela pro calçadão que é dia de feira e ela gosta de pegar as verduras cada uma, sentir a madureza de cada uma, com dedo e olho. Melhor ainda, amanhã vai de ser uma festança, pois que Batman, em toda sua justiça, vai me dar toda a gorjeta de Zé Pedro de hoje e, logo então, Lucinha e Eu teremos feira pra semana e meia.

Mas posto então que aceitei essa aposta de Zé Pedro sem nem pestanejar e agora já tenho suma confiança inteira que mudei o destino que eu ia ter se não tivesse aceitado. Cê sabe que se um dia faz uma coisa que nunca tinha nem atinado de fazer, tá claro que cê não é mais a pessoa que era de anteriormente. Se agora homem-morcego porquê daqui há uns quindins não transfiguro em gerente ao invés de atendente? Pode de ser, não é? Lucinha ia ficar de olho cheio, até.

Ô chuva boa, que caí do céu! Falta de um pouco para eu pegar no serviço, mas me confesso que até que tomei gosto de ser Batman de um tempinho. É verdade que te olham disfarçado, mas também um olhar de alegria e bem humorança que faz o coração leve. Deve de ser por isso que tem super herói de um tanto nos filmes e nas revistas. Deve de ser, não é?