Na hora H

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Daniel Silva, apesar do nome, é um autor americano que escreve deliciosos livros de espionagem e sua série tem como herói Gabriel Allon, um relutante espião do serviço secreto israelense. “O caso Rembrandt” não é o seu título mais recente, mas dentro da série acho que é dos poucos que você pode ler sem conhecer o histórico da saga, pois tem uma história bem fechada que não deixa nada a resolver.

Allon é um personagem complexo: foi recrutado ainda jovem pelo cabeça do serviço secreto israelense, Ari Shamron, quando estava na faculdade de artes para participar da missão que vingaria o massacre ocorrido durante as Olimpíadas de Munique, onde onze membros da delegação de Israel foram mortos pelo grupo palestino Setembro Negro, e, a partir de então, se torna um dos principais agentes de Sharon. Porém no início de “O caso Rembrandt, Allon, depois de pesadas perdas pessoais, está querendo deixar a vida de espionagem e trabalhar como restaurador na Cornualha, junto com sua mulher, Chiara. Mas é claro que o destino (e Shamron) tem outros planos e quando um restaurador é morto e o famoso quadro Rembrandt no qual a vítima trabalhava desaparece, Allon é convencido a entrar em cena. A investigação leva Allon e seu time em uma travessia por várias cidades européias, e Silva sabe exatamente como utilizar seus personagens para construir uma narrativa complexa, que tem base em fatos históricos e que por isso, em certos momentos, é assustadoramente realista.

O que me atrai nos livros de Silva é justamente essa capacidade do autor de trazer a realidade para tão perto da ficção. Eu acho tão difícil entender os conflitos existentes no Oriente Médio, todas as motivações são tão distantes da nossa realidade brasileira, que mesmo acompanhando as notícias acho complicado entender porque não é possível encontrar uma solução para algo que já é tão grave e mortal a tanto tempo. E os livros de Silva me ajudaram a ter uma nova perspectiva disso. Pode parecer pouca coisa, mas a verdade é que no final do ano, que é quando colocamos nossas vidas na balança para analisar, que buscamos entender onde estamos, primeiro como pessoa e depois como ser humano, entender o outro é de suma importância (só não mais do que entender a si mesmo, mas esse movimento só pode ser feito internamente, não é?). Adoro Gabriel Allon e sua equipe de agentes focados em construir uma nova realidade, adoro que Silva não faz seu herói perfeito e que várias vezes tudo dá errado para os mocinhos. Mas que mesmo assim eles não desistem. Não é assim que tem que ser? A gente planeja mas nem sempre (na verdade quase nunca) as coisas saem como esperado e a gente tem que fazer o que dá, e olha que as vezes o resultado é melhor assim do que o que tínhamos planejado.

Enfim, depois de encher vocês com as minhas filosofadas, vou dizer que a receita de hoje nasceu exatamente assim: de um plano que deu errado. Meu marido tinha comprado um pote de funghi secchi na intenção de fazer um risoto, mas cadê o arroz arbóreo? A gente achou que tinha, mas na hora H não tinha e aí, faz o quê? Improvisa meu bem, tirei da despensa uma massa que tava lá para emergências, saí correndo até o mercadinho para arrumar um creme de leite e de quebra arrumei uma salsinha. E assim nasceu nossa receita sucesso de massa ao funghi: desde então já fiz com penne, com fusilli, com spaguetti e essa da foto é com rigatone. Fica sempre uma delícia.

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Massa a la Allon (serve de 2 a 3 pessoas)

Ingredientes:

  • 350g de massa
  • 200g de creme de leite
  • 150g de funghi secchi
  • 1 cebola roxa média
  • um punhado de salsinha
  • azeite, sal e pimenta do reino a gosto

Modo de preparo:

  1. Hidrate o funghi: lave os cogumelos, escorra e cubra com água fervente. Deixe descansar por 30 minutos.
  2. Coe e reserve a água. Depois utilize a mesma água do funghi para cozinhar a massa, sem esquecer de colocar um fio de azeite para a massa não grudar. Dado o tempo indicado, escorra bem e salgue. Coloque no recipiente que for servir.
  3. Enquanto a massa cozinha, esprema os cogumelos apertando com as mãos para secarem bem e então pique em pedaços pequenos. Pique a salsinha.
  4. Em outra panela, refogue a cebola  roxa picada em cubinhos no azeite, sal e pimenta. Junte o funghi e refogue bem. Adicione o creme de leite e deixe reduzir por alguns minutos. Tempere bem com sal e pimenta e então despeje sobre a massa.
  5. Decore com a salsinha picada e sirva imediatamente.

O caso Rembrandt”

Autor: Daniel Silva
Editora: Arqueiro
Páginas: 304

Viagem interna

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No ano passado fiz um curso muito legal, uma Oficina de Contos, n’O Sítio, lá em Floripa, com a querida Milu Leite, e, em uma das aulas falamos sobre o livro desse post “Se um viajante numa noite de inverno” do Ítalo Calvino.

Gente, esse post é um desafio! Não sei como explicar o livro que esse louco italiano escreveu: um labirinto de estórias que desencontra em outro labirinto, levando o leitor por um caminho totalmente surpreendente. Te garanto uma coisa: você nunca leu um livro assim. Logo de cara, Calvino já brinca com o leitor e estabelece um relacionamento diferente entre o livro-objeto e você-leitor. O tom do livro é indulgente, cheio de humor, mas não se engane: esse livro é cheio de críticas e para lá de sagaz.

A história é a seguinte: o Leitor (você!) vai a uma livraria e compra o novo romance de Ítalo Calvino, “Se um viajante numa noite de inverno” (o seu livro!) e vai para casa começar a desfrutar de sua leitura, porém, logo quando você (ele!) está chegando na parte boa, livro é interrompido por… um livro diferente. É isso mesmo, no meio do livro aconteceu algum problema de edição e agora tem outra história ali (vai uma criticazinha mordaz ao mercado editorial aí, alguém?). Confuso, o leitor retorna a livraria e, em sua busca pela história perdida, conhece a Leitora. E a partir daí a narrativa se desenrola cada vez mais complexa e surpreendente, como Alice através da toca do coelho, vamos correndo atrás de histórias perdidas, autores esquecidos e línguas mortas. Calvino usa toda a sua habilidade e humor e o final vai te deixar sorrindo. Não é qualquer autor que conseguiria uma façanha como essa -minhas palmas para esse gênio italiano.

Para esse livro delicioso, queria uma receita italiana como seu autor. Algo me lembrasse a diversão e o afeto do autor pela literatura, paixões que transparecem na sua obra. Me lembrei do primeiro episódio do Chef’s Table com o brilhante chef Mássimo Bottura, onde ele conta como pensou no seu prato de tortellini: é tão lindo, tão cheio de calor humano. Quis pensar em um prato que me trouxesse essa mesma sensação, esse quentinho dentro do peito e o que veio foi: gnocchi. Então segue aí essa receitinha simples de gnocchi de ricota, que é divertida de fazer e melhor ainda de mangiare ❤



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Gnocchi de Ricota para leitores vorazes (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 450g ricota
  • 2 ovos
  • 1/2 xícara de queijo parmesão ralado fino (mais ou menos 50g)
  • 1/2 xícara de farinha de trigo
  • 1 colher de chá de sal
  • 4 colheres de sopa de manteiga
  • queijo parmesão em lascas
  • folhas de manjericão a gosto para servir

Modo de Preparo:

  1. Coloque a ricota numa tigela grande e, com as mãos, quebre e esfarele em pequenos pedaços. Numa tigelinha separada, quebre os ovos, um de cada vez, e junte à ricota.. Adicione o queijo ralado e o sal e amasse bem com as mãos para misturar. Junte a farinha e amasse novamente, até formar uma massa lisa. Cubra com filme e deixe na geladeira por 15 minutos para firmar.
  2. Modele os gnocchis: com as mãos, separe uma porção da massa, enrole do tamanho de uma bola de gude e achate levemente. Transfira para uma assadeira e repita o mesmo processo com o restante da massa. Se preferir, faça rolinhos e, com uma faca, corte a cada 2 cm para formar os nhoques.
  3. Leve ao fogo alto uma caçarola média com água. Assim que ferver, adicione 1 colher de sopa de sal. Com uma escumadeira, mergulhe cerca de 15 nhoques por vez. Deixe cozinhar por mais 2 minutos depois que subirem à superfície. Pesque os nhoques cozidos com a escumadeira, escorrendo bem a água, e transfira para uma travessa. Cozinhe o restante e reserve 1 xícara da água do cozimento que mais tarde ela será utilizada para fazer o molho.
  4. Leve uma frigideira grande ao fogo médio. Quando aquecer, adicione 1 colher de sopa de manteiga e disponha metade dos nhoques na frigideira. Deixe por cerca de 2 minutos. Vire com uma espátula e deixe por mais 1 minuto para dourar por igual. Transfira para um prato e repita com a outra metade, adicionando 1 colher de sopa de manteiga a cada leva. Deixe eles bem douradinhos para ficarem crocantes!
  5. Mantenha a frigideira em fogo médio e adicione o restante da manteiga. Assim que derreter, regue com ½ xícara (chá) da água do cozimento. Desligue o fogo e mexa a frigideira, delicadamente, fazendo movimentos circulares até formar um molho liso – ao misturar com a espátula a gordura pode se separar do molho. Se desejar um molho mais ralo, adicione, aos poucos, o restante da água do cozimento e ligue o fogo novamente apenas para aquecer. Transfira para uma molheira.
  6. Sirva os gnocchis de ricota com o molho de manteiga, queijo parmesão em lascas e folhas de manjericão fresca a gosto. Se quiser também pode colocar umas lascas de amêndoas torradas que combinam muito bem.

Se um viajante numa noite de inverno”

Autor: Ítalo Calvino

Editora: Companhia das Letras

Traduzido por: Nilson Moulin

280 páginas

Poética

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Semana passada eu achei um livro que eu adoro ao abrir umas caixas da mudança, “Receita pra lavar palavra suja” é uma coletânea de poemas da Viviane Mosé. É um livro fino, em todos os sentidos da palavra.

Viviane Mosé é uma das poetisas brasileiras de maior expressão dos últimos tempos. O que eu adoro nesse livro é a contraposição de delicadeza e força que existe nele. Os poemas da Viviane se apropriam do português com esperteza, mas sem perder o lirismo. As palavras flutuam em diferentes significados como é natural na poesia, mas em Viviane elas exibem um peso também. Como nesse poema abaixo:

“Ando com um balde de água embaixo de cada olho.

Preciso ir bem devagar

Senão derrama.”

Eu não leio poesia com frequência, sou mais dos romances mesmo. Mas acho que os poemas nesse livro são uma delícia, um livro leve mas cheio de conteúdo e com alguns momentos de surpresa. Logo o equivalente desse livro para mim é uma massa simples mas especial. Sustância e sabor, sem perder a leveza. Prato para gente esperta, mas que gosta de poesia.

Taglietelle Poético (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 500g de tagliatelle de boa qualidade
  • Raspas de 2 a 3 limões sicilianos
  • 2 colheres de sopa de manteiga
  • 150g de queijo de cabra
  • 1/4 de xícara de aroeira (pimenta rosa)
  • Azeite e sal a gosto

Preparo:

  1. Coloque a água do macarrão para ferver em uma espagueteira e adicione sal.
  2. Enquanto a água ferve, rale os limões e reserve.
  3. Coloque um fio de azeite na água e adicione o macarrão, com atenção ao tempo de cozimento indicado. Acompanhe, pois nem sempre o pacote coloca o tempo ideal.
  4. Escorra o tagliatelle e então coloque na travessa que irá servir. Coloque a manteiga em duas partes e misture bem. Teste se está bom de sal, e se necessário coloque mais.
  5. Adicione as raspas de limão aos poucos para ficar bem homogêneo.
  6. Adicione o queijo de cabra (se estiver inteiro corte em cubinhos de 1 cm) e a pimenta. Misture e sirva ainda quente.

 

Massa sossegada

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Há um tempão atrás meu irmão me deu um livro importante, o “Livro do Desassossego” do Fernando Pessoa. Ganhei de aniversário e desde então o livro tem lugar de honra na estante, sempre à mão (valeu, irmão!). As vezes leio quando estou triste, as vezes quando estou sem inspiração, e as palavras de Pessoa sempre fazem alguma coisa. Não vou dizer que resolvem o problema, não resolvem. Mas de alguma maneira elas ajudam. Vocês tem algum livro assim? Amigo de cabeceira? Comentários por favor! rsrs

Não sei nem como falar alguma coisa nova desse monstro da poesia que é o Sr. Pessoa. Ele escreveu tudo com tanta sabedoria que adicionar alguma coisa é presunçoso. Por exemplo: “Nem brisa, nem gente interrompe o que não penso. Tenho sono do mesmo modo que tenho vida. Só que sinto nas pálpebras como se houvesse o que fazer-mas pesar. Ouço a minha respiração. Durmo ou desperto?” Trecho do número 480 do livro. Pessoa tem essa melancolia meio particular, que cai especialmente bem em momentos de fossa. Outro dia eu revi “Mensagem pra você” (vocês se lembram desse filme do Tom Hanks com a Meg Ryan na época em que e-mail e chats eram novidade e o Facebook nem estava no horizonte? Maravilhoso) e no filme o personagem do Tom Hanks fala que “O Poderoso Chefão” é o I Ching, que ele contém todas as respostas. Acho que o meu I Ching é o Fernando Pessoa (e nem sempre ele me fala o que eu queria ouvir, mas sim o que eu preciso, a la Rolling Stones).

Vai aí mais um trechinho para vocês ficarem com água na boca: “Que tragédia não acreditar na perfectibilidade humana!… – E que tragédia acreditar nela!”

Como hoje estou falando daquele amigo que acompanha sempre a gente, que está lá nas horas de desespero e de alegria, a receita de hoje só podia ser uma: massa. Minha família é italiana (o sobrenome não engana!) e a primeira coisa que a minha mãe me ensinou a fazer foi macarrão (o dela é maravilhoso). Hoje vai aí uma versão inspirada na salada de frango ao pesto do Gula-Gula que virou sucesso aqui em casa e que dá aquela felicidade quando você come.

Penne do Desassossego (serve de duas a quatro pessoas)

Ingredientes:

  • 400g de penne ou fusilli (não fica bom com espaguetti ou talharim)
  • 1 maço grande de manjericão lavado
  • 5 a 7 dentes de alho sem casca espremidos (depende de quanto vc gosta de alho)
  • 3/4 xícara de chá de azeite de oliva
  • Um potinho de mini mozzarelinha de búfala
  • 1/2 xícara de chá de queijo parmesão ralado
  • 1/2 xícara de chá de nozes picadas
  • Sal e pimenta do reino a gosto
  • 1/2 caixa de tomates cereja lavados e cortados ao meio

Preparo:

  1. Cozinhe o macarrão em água fervente, de acordo com as instruções no pacote. Coloque um fio de azeite na água quando colocar o macarrão para não grudar.
  2. Lave o manjericão em água corrente. Seque e separe somente as folhas
  3. Descasque os dentes de alho e esprema.
  4. Coloque no liquidificador o manjericão, o azeite de oliva, o parmesão, as nozes e o sal e a pimenta.
  5. Bata por uns 5 minutos até obter um pesto homogêneo.
  6. Coloque o penne em uma travessa e cubra com o pesto.
  7. Adicione as mozzarelinhas e o tomate cereja.
  8. Sirva em seguida

Prontinho! Ah, quem quiser pode colocar o frango desfiado também, igual na receita que a gente copiou (de leve! rsrs).