À espanhola

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Há tempos que “A sombra do vento”, do Carlos Ruiz Zafón, estava na minha pilha de livros. Mas eu sempre passava outro na frente, por um motivo ou outro. Até que um dia, trocamos olhares e lá fui eu para dentro da toca do coelho.

“A sombra do vento” conta a história de Daniel Sempere, que começa quando ele ainda é menino, e de Julian Carax, dois homens ligados por um livro que se chama também “A sombra do vento”. A narrativa começa quando Daniel tem onze anos. Um dia, ele que perdeu a mãe, acorda de noite sem conseguir lembrar-se do rosto dela. Então, seu pai, um livreiro respeitado de Barcelona, o leva até um local secreto chamado “O Cemitério dos Livros Esquecidos”, um labirinto de livros que esperam o leitor certo. Isaac Monfort, o responsável pelo cemitério, e seu pai dizem para ele escolher um livro e Daniel escolhe justamente “A sombra do vento” de Julian Carax.

O menino devora o livro e fica obcecado com seu autor, quer achar outros livros dele, saber mais sobre a vida de Julian. Porém, os livros de Carax estão desaparecidos e há pouco rastro sobre o mesmo. Mas um dia, um homem estranho e assustador o aborda querendo comprar dele o livro, ele diz se chamar Laín Coubert, o nome do diabo no livro de Carax. Daniel se recusa a vender seu bem mais precioso, mas sente um grande medo do homem.

Passam-se vários anos, Daniel, já com dezoito anos, trabalha na livraria do pai. Um dia ele recruta para ajudar na livraria um mendigo que ele sempre vê nas suas andanças pela vizinhança, Fermín Romero de Torres. Fermín, na minha opinião o melhor personagem do livro, torna-se muito amigo de Daniel e os dois juntos tentam resolver o mistério de Carax. Assim, Daniel segue uma trilha tortuosa até encontrar a história do seu ídolo, Carax. Uma história que acaba repercutindo no presente e inclusive nos amores de Daniel.

O melhor de “A sombra do vento” é a escrita divertida de Záfon, que é especialmente ótima no personagem de Fermín. Sem contar o maravilhoso tour de Barcelona que fazemos ao acompanharmos as andanças de Daniel. Vou confessar que o começo do livro é lento, demora a prender o leitor. Mas a insistência é recompensada depois com sobra. Quando estava lendo, ficava pensando nas tapas espanholas, aqueles milhões de pratinhos deliciosos. Mas depois achei que “A sombra do vento” é muito substancial para somente uma tapa, e pensei em uma paella. Mas isso também não me pareceu acertado, muito cheio de coisas demais. Então me lembrei das fritadas, essa delícia de omelete de batata, que é substancial mas não é pesada. Então, segue aí, uma fritada para o senhor Sempere!

Fritada para Sempere e Carax (serve duas pessoas)

Ingredientes:

  • 4 ovos
  • 1/4 de xícara de leite ou creme de leite
  • 2 a 3 batatas pequenas
  • 2 a 3 cebolas pequenas
  • 2 punhados grandes de tomates cereja cortados ao meio
  • 75g de queijo minas padrão ou queijo de cabra
  • endro ou erva-doce a gosto
  • azeite, sal e pimenta do reino

Preparo:

  1. Descasque e corte as batatas em círculos de mais ou menos 0,5cm de espessura, de preferência um pouco menos.
  2. Descasque e corte as cebolas em rodelas finas.
  3. Coloque no fogo uma frigideira de fundo grosso, e espere esquentar um pouco. Regue o fundo generosamente com azeite e então disponha as batatas pelo fundo, uma ao lado da outra, até cobrirem o fundo da frigideira inteiro. Deixe o fogo aceso em temperatura média.
  4. Bata os ovos com o leite e tempere com sal e pimenta até a mistura ficar homogênea.
  5. Despeje a mistura de ovos sobre as batatas. Espere um minuto e então adicione as cebolas e os tomates. Por último adicione o endro.
  6. Deixe cozinhar meio tampada em fogo baixo por quinze minutos.
  7. Agora é só servir!

Vida (nada) fácil

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Em “Cidade de Ladrões”, David Benioff (um dos produtores e roteiristas de Game of Thrones!) conta a história de Lev, um adolescente russo judeu que decide ficar em Leningrado durante o final da segunda guerra mundial. No livro, acompanhamos Lev e Kolya, um soldado russo aspirante a poeta, em uma busca maluca por ovos. Isso mesmo, ovos.

Lev e Kolya são presos em Leningrado e levados a um coronel do exército russo. Os dois não tem nada em comum, fora a missão que recebem do coronel: achar uma dúzia de ovos em uma Leningrado destruída e faminta. A missão os coloca em situações inusitadas e perigosas, e todos os momentos difíceis pelos quais passam juntos fazem com que os dois acabem formando uma amizade de conveniência. Kolya e Lev são opostos (Benioff os coloca em lados extremos do espectro de propósito, claro): um é moreno, outro louro, uma alto, outro mais baixo, um judeu e outro russo (mas com pinta de alemão), um introvertido, o outro extrovertido. Esse contraste vai sendo explorado no livro de forma que o autor aos poucos começa a borrar um pouco as linhas. Pode Lev ser um pouco mais Kolya e vice-versa? É divertido ver o impacto de um personagem sobre o outro.

Enfim, na busca pelos ovos o par improvável acaba encontrando mais que ovos, claro. Mas o que fica na cabeça depois do livro é justamente essa sensação de que muita coisa pode ser atingida quando você tem a companhia certa e um pouco de sorte. De certa maneira é um livro sobre o amadurecimento, só que ele se passa durante a guerra então ao invés de Lev lidar com os colegas caçoando dele no recreio, ele encara rebeldes e exércitos nazistas (you know, no big deal). Acho que minha principal razão para gostar do livro foi o modo de Benioff escrever, ágil e com humor (eu li em algum lugar alguém chamar Kolya de Pernalonga e achei maravilhoso!). Além disso ler sobre todos os perrengues que as pessoas passavam (e ainda passam) durante a guerra deixa sempre uma sensação de agradecimento, mesmo com todos os problemas que temos aqui.

Como não poderia deixar de ser a receita da vez é de… ovos! Duh. Eu adoro ovos. Ovos são aqueles itens de emergência que resolvem a vida quando você esqueceu de ir ao mercado e não tem mais na geladeira. Por isso aqui vai uma receitinha caprichada na gema: fritada.

Fritada com aspargos para facilitar a vida

Ingredientes:

  • Aspargos verdes
  • 80ml de azeite
  • 1 xícara de folhas de espinafre
  • 1 cebola roxa
  • 2 batatas médias cortadas finas
  • 6 ovos grandes
  • 1 colher de sopa de coentro
  • 1 colher de chá de cominho
  • sal e pimenta do reino a gosto

Preparo:

  1. Corte os aspargos, a cebola e as batatas (estas últimas em rodelas de mais ou menos 3 mm).
  2. Refogue a cebola em uma frigideira de fundo grosso, até ela ficar macia. Adicione as batatas e cozinhe por uns 10 minutos em fogo médio.
  3. Adicione os aspargos e o espinafre às batatas e deixe cozinhar por alguns minutos.
  4. Quebre os ovos, cada um separadamente, porque vai que algum deles não está bom. Coloque todos em uma tigela pequena e bata bem com um garfo ou um fouet.
  5. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto a mistura de ovos. Adicione o cominho e mexa.
  6. Organize as batatas no fundo da frigideira até formar uma cama de batatas. Despeje por cima a mistura de ovos.
  7. Deixe cozinhar tampado em fogo médio por 8-10 minutos.
  8. Se achar necessário coloque no foorno por 4 minutos.