Pão Nosso

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Estação Onze, da Emily St. John Mandel, acabou de entrar para a minha galeria de recomendações, daqueles livros que você quer falar para outros lerem, tanto que você fica até meio chato. É bom mesmo.

No livro, uma pandemia assola a Terra e devasta 99% da população mundial. Poucos são os que escapam com vida, e mesmo os que conseguem, tem que viver uma realidade nova, uma vida mais primitiva, onde reina a lei do mais forte. Mas a narrativa por também volta ao passado, mostrando alguns personagens-chave antes da catástrofe acontecer. Assim acompanhamos a história de vários deles, Jeevan, Arthur, Miranda, Clark e a protagonista Kirsten.

Kirsten, pós-pandemia, é uma atriz na Sinfonia Itinerante, uma trupe de músicos e atores que viaja pelos EUA se apresentando pelas cidades no caminho. Ela é atriz desde criança, desde antes da Gripe da Geórgia, e coleciona recortes sobre um ator que se apresentava com ela em Rei Lear e que morre em cena, Arthur Leander. É Arthur que dá para Kirsten sua posse mais preciosa, as revistas em quadrinhos “Estação Onze”, de autoria da ex-mulher dele Miranda.

Já Clark, antigo amigo de Arthur, fica preso no Aeroporto de Severn City e lá funda o Museu da Civilização, onde deposita objetos que já foram significativos mas agora são só memórias de um tempo passado. Lá estão iPhones, iPads, televisões, revistas, cartões de crédito, passaportes e até uma moto. Eletricidade, combustível e internet são sonhos distantes, com toques de surrealidade para os sobreviventes.

Eu adorei esse livro, me peguei pensando em o quanto das nossas vidas parece automatizado mas na verdade depende de outras pessoas. Televisão, internet, luz, ar-condicionado, banho quente, tudo isso é um tipo de mágica para quem vive isolado no meio do mato. Essas invenções maravilhosas da humanidade dependem de uma cadeia de trabalho incessante. De pessoas trabalhando todo dia. Sem isso a civilização cai como dominós. E a maneira como Mandel escreve é realista, mas também otimista. A própria Sinfonia Itinerante que ela criou é um testemunho de fé: enquanto houver arte, estamos salvos. Enquanto houver arte, somos humanos.

Então é claro que eu fiquei pensando no que eu mais sentiria falta de comer se o mundo como eu conheço acabasse (mentalidade de gordinho, eu sei). E a minha resposta foi um ressoante “PÃO”. Eu adoro todos os tipos de pão. Aqui em casa esse negócio de sem glúten não cola (eu respeito quem topa, só não consigo ir junto). Eu acho que eu ia sonhar com pãezinhos variados, bem quentinhos com uma manteiguinha. Por isso a receita de hoje é um pão fácil e rápido de fazer, o tipo mais provável de se fazer se uma calamidade acontecer, a Piadina. A piadina, eu aprendi no livro do Panelinha, é um cruzamento de massa de pizza com foccacia. É uma delicia quentinha com umas ervas em cima e um azeite do lado.

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Piadina da Estação Onze (faz 6 pães de mais ou menos 15cm de comprimento)

Ingredientes:

  • 1 1/2 xícara de chá de farinha de chia (ou farinha de trigo integral se você não tiver)
  • 1 1/2 xícara de chá de farinha de trigo e mais um pouco para enfarinhar a mesa
  • 1 colher de chá de fermento em pó
  • 1 1/2 colher de chá de sal
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 1 1/4 xícara de chá de leite

Preparo:

  1. Numa tigela grande, junte a farinha, o sal e o fermento. Misture e abra um buraco no centro. Coloque o azeite bem no meio e vá esfregando a farinha com os dedos para misturar.
  2. Junte o leite em duas etapas e, com as mãos, misture bem, até formar uma bola. Transfira a massa para uma superfície de trabalho enfarinhada e sove por 3 minutos. No máximo!
  3. Enrole a massa para formar uma cobra e divida em 6 pedaços iguais. Cubra a massa com um pano de prato úmido (e não molhado, muito menos ensopado!).
  4. Coloque uma frigideira grande, de preferência de ferro, ou uma chapa, para aquecer em fogo alto. Abra um pedaço de massa com rolo de macarrão até ficar com cerca de 15 cm de diâmetro. Ou se quiser fazer ela mais compridinha, com 15cm de comprimento.
  5. Quando a frigideira estiver bem quente, coloque a massa e faça vários furos com um garfo; assim que o fundo começar a ficar com pintinhas escuras, uns 2 minutos, vire e deixe cozinhar por mais 2 minutos. Transfira para um prato e cubra com um pano de prato limpo, apenas para não esfriar, enquanto você faz as outras.

 

Eu vejo flores

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No post de hoje vou falar de um livro que ainda não chegou aqui no Brasil, “The Flower Arrangement” da Ella Griffin. Esse livro é simplesmente uma graça, apesar de ter uma premissa um pouco triste: Lara, após perder um bebê, decide mudar de carreira e abre uma floricultura, a “Blossom & Grow”, apelidos dados a ela e ao irmão pelos pais quando os dois eram crianças.

O marido de Lara não dá muita força para o novo empreendimento, mas logo a loja se torna o salva-vidas de Lara, com as flores ajudando-a no seu processo de cura. Os clientes logo percebem que a dona da floricultura tem um jeito especial e a loja, apesar das dificuldades, é bem sucedida. Na loja trabalham Lara e uma assistente, mas seu irmão Phil também ajuda ocasionalmente (Phil é uma graça, gente!). A estória de Lara não é a única do livro, vemos também as vidas de outros personagens que cruzam o seu caminho em alguns capítulos. Inclusive, uma coisa muito fofa desse livro é que cada capítulo começa com o nome de uma flor e seu significado, que claro, tem tudo a ver com o conteúdo que vem a seguir.

Eu nunca tinha lido um livro da Ella Griffin, mas gostei bastante. Achei a escrita bonita e tocante, mas confesso que quando o livro terminou eu fiquei com a sensação de livro incompleto, como se estivessem esquecido o final. Tava tão perto, mas para mim não terminou bem, ficou faltando.  Eu gostei do livro, mas tem esse porém (tão avisados! Mas se alguém ler me fala se achou isso também ou se é da minha cabeça, please).

Depois de “The Flower Arrangement” , eu fiquei pensando em como as vezes as coisas simples servem para ajudar a curar, a mudar de perspectiva, como no caso de Lara em que o contato com as flores faz com que ela consiga carregar melhor sua perda. Eu fiquei pensando em como, quando eu estava viajando, escutar o CD da Gilberto Gil me levava de volta ao Rio e como o cheiro de pão de queijo me fazia sentir imediatamente melhor. O quê faz você se sentir melhor, te ajuda a reconectar e a recarregar? Para mim não tem nem mistério, como já falei é pãozinho de queijo mesmo! Então segue aí, essa receita bacana que eu achei lá no Moldando Afeto, que eu já falei aqui é um site delicioso.

Pãozinho de Queijo para Reviver (rende 80 pãezinhos! Receita do Gui Poulain)

  • 250 ml de água
  • 350 ml de leite
  • 250 ml de óleo de canola
  • 600 g de queijo minas meia cura
  • 1 colher (sopa) de sal
  • 1 kg de polvilho azedo
  • 6 ovos
  1. Rale o queijo, em ralo grosso, antes de começar. Reserve.
  2. Espalhe o polvilho sobre uma superfície, ou uma grande bacia. Molhe com 250 ml de água em temperatura ambiente. É isso que vai ajudar a hidratar o polvilho e o pão de queijo não ficar seco. Depois de esparramar a água, com as duas mãos vá sovando pra desmanchar todas as pedrinhas que se formam. O objetivo é voltar o polvilho ao original, mas que ele esteja úmido.
  3. Leve o leite ao fogo junto ao óleo. Assim que ferver desligue. Com esse líquido, regue novamente o polvilho, tomando cuidado pra não fazer muita bagunça! Aos poucos, com a mão mesmo, e tomando cuidado pois está quente, comece a misturar e sovar. É nessa hora que começa a tomar consistência de massa.
  4. Assim que estiver uma massa branca bem quebradiça, é hora de adicionar os ovos. Vá fazendo isso um a um, e sovando pra incorporar. É muito melequento mesmo! Por último junte o queijo ralado, e sove um pouco mais. A massa fica bastante grudenta. Varia um pouco com o clima: Se estiver seco e quente, provavelmente ela vai ficar no ponto. Se estiver chuvoso e mais frio ela deve fica mais grudenta e levemente mole mesmo, mas não tem problema. Se achar que está ficando muito mole, coloque um ovo a menos, se estiver muito seca, adicione um pouco de leite.
  5. Lave bem as mãos e passe um pouco de óleo nela pra fazer as bolinhas, e repasse mais óleo assim que observar que estiver ficando grudento. Como rendem muitos pãezinhos, pode ser uma boa congelar. Basta fazer todas as bolinhas, colocar uma ao lado da outra numa assadeira (não precisa dar muito espaço já que não vai ser assado e nem crescer) e levo ao freezer. Umas 2 horas depois retiro todas as bolinhas já duras e congeladas e coloco em saquinhos.
  6. Para assar: Tem gente que prefere assar em fogo baixo. Já o Gui recomenda (e funciona!) colocar o forno a 280º C, bem quente mesmo, previamente aquecido! Deixar por 20 minutos nessa temperatura e depois abaixar para cerca de 220º C por mais 10 minutos. Assim ele cresce bem, não resseca, fica levemente massudo com pedaços de queijo derretidos por dentro, e uma casquinha crocante e toda cheia de pintinhas alaranjadas do queijo que derreteu ali. Uma delícia para aquele lanchinho da tarde (pensamento de gordinho!).

 

Escolhas

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O livro de hoje é um livro diferente dos que eu normalmente falo aqui, “O mundo pós-aniversário” de Lionel Shriver. Vou ser bem honesta, eu não amei esse livro. Peguei ele para ler e parei logo no começo. Só voltei a ler depois de uma amiga recomendar muito. Enfim, devo dizer que esse livro não é um livro apaixonante, pelo menos não na minha opinião. Mas é um livro interessante e com uma premissa excelente, só que para mim demorou um pouco para engrenar.

No livro, Irina é uma ilustradora de livros infantis em uma relação estável com Lawrence, um cientista político e os dois são americanos radicados em Londres. Ela trabalha em parceria com uma autora britânica, Jude, que é casada com um famoso jogador de sinuca, Ramsay. Logo os dois casais estabelecem uma rotina de jantarem juntos no aniversário de Ramsay. Tradição que eles mantém com Ramsay, mesmo após ele e Jude se divorciarem. Em um ano, Ramsay e Irina acabam celebrando sozinhos e, neste evento, Irina se vê com uma escolha para fazer: se manter fiel em um relacionamento que já não a satisfaz ou rolar os dados e buscar uma vida diferente com um homem que é o oposto do seu namorado.

E a partir desse ponto, o livro se divide em dois. Passamos a acompanhar a vida de Irina nas duas situações: se ela tivesse escolhido Ramsay ou Lawrence. O legal do livro é que fica claro que não existe uma escolha certa (inclusive a autora é até bem didática com relação a isso) mas sim escolhas diversas. Lionel Shriver conta através de Irina uma história cheia de nuances, que fala bastante de como nossos relacionamentos podem afetar nossa visão de quem nós somos. A autora, de forma inteligente, não fala de escolhas a la “O Efeito Borboleta”, mas mostrando as pequenas diferenças também, e, principalmente, analisando como Irina mesmo muda internamente em função da escolha de parceiro. Eu, que tive dificuldade de me fixar nesse livro no começo, fiquei grudada nele no final.

No livro, Irina adora cozinhar e é ligeiramente obcecada por temperos e pipoca. Por isso resolvi compartilhar aqui duas receitas de pipoca lá do Panelinha, que simbolizam as duas escolhas que Irina poderia fazer. E você, qual você escolhe?

Pipoca Lawrence (com curry e parmesão)

Ingredientes

  • 1/2 xícara de chá de milho para pipoca
  • 2 colheres de sopa de óleo de canola
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1 colher de chá de curry
  • 1 colher de chá de coentro em pó
  • 1 colher de chá de pimenta do reino moída na hora
  • 1 pitada de sal
  • 1/2 xícara de queijo parmesão ralado fino

Preparo:

  1. Numa panela funda coloque o milho de pipoca e o óleo, mexa e tampe. Leve ao fogo médio e deixe estourar, mexendo a panela de vez em quando, segurando no cabo e na tampa fechada, para que o milho não queime.
  2. Quando o intervalo entre um estouro e outro for maior do que 2 segundos, desligue o fogo e transfira a pipoca para uma vasilha.
  3. Numa tigela de vidro, coloque a manteiga e leve ao micro-ondas apenas para derreter. Retire do aparelho e junte o curry, o coentro, o sal e a pimenta e misture.
  4. Despeje a manteiga temperada sobre a pipoca estourada, junte o queijo parmesão ralado e mexa bem para misturar tudo uniformemente. Ajuste o sal se necessário. Sirva imediatamente.

Pipoca Ramsay (com açúcar mascavo e cardamomo)

Ingredientes

  • 1/2 xícara (chá) de milho para pipoca
  • 2 colheres (sopa) de óleo de canola
  • 2 colheres (sopa) de manteiga
  • 2 colheres (sopa) de açúcar mascavo
  • 2 bagas de cardamomo
  • 1 colher (chá) de canela em pó
  • 1 pitada de sal

Preparo:

  1. Numa panela funda coloque o milho de pipoca e o óleo, mexa e tampe. Leve ao fogo médio e deixe estourar, mexendo a panela de vez em quando, segurando no cabo e na tampa fechada, para que o milho não queime.
  2. Quando o intervalo entre um estouro e outro for maior do que 2 segundos, desligue o fogo e transfira a pipoca para uma vasilha.
  3. Numa tábua, use uma faca de legumes para cortar, com cuidado, as pontas da baga de cardamomo, em seguida abra ao meio e raspe as sementes. Transfira as sementes para um pilão e macere; se preferir, pique fino com a faca.
  4. Numa panela pequena, junte a manteiga, o açúcar mascavo, a canela e as sementes de cardamomo. Leve ao fogo baixo, mexendo sempre, até todo o açúcar e a manteiga derreterem, formando uma calda.
  5. Despeje a calda sobre a pipoca estourada e mexa bem para misturar tudo uniformemente. Tempere com sal e sirva imediatamente.