Um doce de livro

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“Para todos os garotos que já amei”, da Jenny Han, é um doce de livro. É tão romântico, tão cheio daquela ingenuidade adolescente que as vezes dá até uma certa nostalgia (até você lembrar que ser adolescente era um sofrimento só, com provas de física, espinhas gigantes e hormônios que deixavam você meio enlouquecida).

Lara Jean, a protagonista de Han, é uma menina doce e tímida, vive em um mundo insular com suas irmãs, Margot e Kitty, e seu pai; uma vida tranquila, sem grandes surpresas, e repleta de romances de fantasia. Até que um dia ela é forçada para fora de sua bolha segura, quando todos os meninos de quem ela gostara, e um do qual ainda gosta, recebem cartas que declaram seu amor por eles. Cartas secretas que misteriosamente chegam aos destinatários que nunca deveriam vê-las. É uma premissa meio mamão com açúcar, meio sessão da tarde, mas Lara Jean é uma personagem tão fofa, que você vai deixar para lá essas picuinhas e acompanhar enquanto ela saí da sua concha para descobrir (e o amor) o mundo lá fora, com a ajuda de um dos seus amores, o garoto mais popular da escola, Peter Kavinsky.

O que eu adorei nesse livro foi a habilidade de Han em criar um mundo para Lara Jean. Todo tempo que eu estava lendo, imaginava cada pedaço da sua vida, das suas meias aos pijamas, passando pelos cadernos e tranças elaboradas. Lara Jean é um doce, Peter Kavinsky é lindo e Kitty vai fazer você rir. E vai deixar você morrendo de vontade de comer um doce delicioso (ou pelo menos foi o que aconteceu comigo). Por isso pensei em uma receita bem doce, que vai deixar você suspirando, igual o Peter K. faz com as mocinhas. Brownies é claro!

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Brownies para Lara Jean Song

Ingredientes:

  • 340g de açúcar mascavo
  • 3 ovos
  • 300g de chocolate meio amargo picado
  • 1 barra de manteiga sem sal
  • 145g de farinha de trigo
  • 30g de cacau em pó (esse ingrediente é importante para fazer essa casquinha brilhante deliciosa 🙂 )
  • 1/2 xícara de nozes picadas rusticamente
  • 1 colher de chá de essência de baunilha
  • 1/2 colher de chá de fermento
  • 1 colher de chá de flor de sal ou 1/2 de sal

Modo de Preparo:

  1. Pique o chocolate bem grosseiramente e derreta no microondas com a manteiga por 1 minuto. Depois, mexa até se transformar em um líquido homogêneo e brilhante.
  2. Bata os ovos com o açúcar e adicione à mistura de chocolate.
  3. Acrescente e misture rapidamente a farinha, o cacau e o fermento.
  4. Por último coloque a baunilha e o sal e mexa delicadamente.
  5. Ponha a massa em uma fôrma untada e asse em forno pré-aquecido a 220 graus por 30 a 40 minutos.

1 ano de Cozinha Literária!

1ano

Hoje o Cozinha Literária faz um ano! Gente, eu estou superfeliz com todo o retorno que o blog vem tendo; é muito bacana ver que as pessoas lêem e ficam animadas com os livros e as receitas 🙂 Como blogueira iniciante eu não tenho muita prática nas coisas internetsistícas, então para mim é tudo novo (as vezes um pouco difícil, as vezes divertido) e tenho aprendido muito com o blog e com as pessoas que ele trouxe. Então fica aqui o meu muito muito obrigada para cada um de vocês que lê, que comenta e experimenta, enfim para quem faz parte dessa pequena história que comecei por aqui.

Como não podia deixar de ser, eu vou postar aqui uma receita e um livro, mas dessa vez o quê conecta eles sou eu! (ô humildade! rsrs) Quero postar hoje um dos meus livros preferidos e também meu bolo de aniversário favorito. Hoje pode, né?

O livro de hoje é nada menos do que um clássico brasileiro, Capitães da Areia do Jorge Amado. Esse livro, gente, esse livro é tão emocionante, é uma pedrada no coração. Quem conseguir ler e dizer que não ficou com o coração apertado ganha um doce (mas é impossível a não ser que você seja um robô). A história de Pedro Bala, Dora e o Professor é um clássico por um motivo simples: foi escrito em 1937 mas continua sendo atual até hoje.

Nesse livro, Jorge Amado faz um milagre: ele começa o livro com o protagonista cometendo um ato horrível, que normalmente o leitor não perdoaria de jeito nenhum. Mas conforme a narrativa vai evoluindo, você entende melhor quem são esses personagens e o que faz com que cada um deles lute pelo dia seguinte. Eu me apaixonei pelos meninos perdidos que se chamam de Capitães da Areia, e até hoje, muitos anos depois, ainda penso nesse livro como um marco, pois me fez questionar muita coisa que antes eu não havia parado para pensar.

Eeee, a receita de hoje é o bolo delícia de cenoura com calda de chocolate! Eu amo, amo, amo essa combinação. Então segue aí!

Bolo de cenoura com calda de chocolate

Ingredientes:

Para o bolo:

  • 3 cenouras
  • 4 ovos
  • 1 xícara de óleo de canola, milho ou girassol
  • 1 1/2 xícara de açúcar
  • 2 xícaras de farinha de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 1 pitada de sal
  • manteiga e farinha de trigo para untar e polvilhar

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 180ºC. Unte uma fôrma redonda de 23 cm de diâmetro com manteiga. Polvilhe com farinha de trigo.
  2. Coloque a farinha, o sal e o fermento em uma tigela, passando pela peneira. Misture delicadamente e reserve.
  3. Lave e descasque as cenouras. Descarte a extremidade superior e corte as cenouras em rodelas.
  4. Quebre os ovos um a um, em uma tigela e coloque no copo do liquidificador. Junte as cenouras, o óleo e o açúcar e bata até formar uma mistura homogênea.
  5. Junte a mistura do liquidificador à tigela com a farinha, o fermento e o sal. Com um batedor de arame, misture delicadamente até ficar liso e homogêneo.
  6. Transfira a massa para a assadeira e leve ao forno preaquecido por cerca de 50 minutos. Para saber se o bolo está bom, espete um palito na massa: se sair limpo é sinal de que o bolo está assado e pode ser retirado do forno. Caso contrário, deixe por mais alguns minutos até que asse completamente. Deixe esfriar por 15 minutos antes de desenformar.

Para a calda:

Ingredientes:

  • 1/2 xícara de chocolate em pó
  • 1/3 de xícara de açúcar
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1/3 de xícara de água

Preparo:

  1. Numa panela pequena junte o chocolate, o açúcar, a manteiga e a água. Leve ao fogo médio mexendo sempre com um batedor de arame.
  2. Quando começar a ferver, cozinhe por cerca de 4 minutos, sem parar de mexer. Assim que a calda começar a desgrudar do fundo da panela é sinal de que está pronta.
  3. Regue a calda quente sobre o bolo já frio e desenformado e deixe esfriar. Sirva a seguir.

Colecionando


No começo de Janeiro realizei um sonho: recebi de presente por causa do blog um livro! Fiquei emocionada quando a Erica Oliveira entrou em contato comigo por e-mail e falou que gostava do Cozinha Literária e queria de me enviar o seu livro. Enfim, algumas semanas atras recebi “Betina, a colecionadora”, da Erica Oliveira com ilustrações (lindas!) de Anttonio Pereira.

Esse fofo livro infantil fala da história de Betina, uma menina que vive cercada de colecionadores de todo tipo de coisas: árvores, filhos, chupetas, biscoitos e até sardas! Ela começa então a procurar pela coleção perfeita para chamar de sua. Quando ela finalmente encontra, não quero estragar a surpresa, então só vou dizer que é uma coleção bem diferente!

No final do livro tem uma festa de aniversário e uma disputa pelo primeiro pedaço, como sempre! Eu me lembro de como era a sensação de esperar essa honra! rsrs. Por isso mesmo acho que para honrar a Betina, a receita desse livro é uma receitinha especial de família: bolo de laranja da minha avó. Vale disputar cada pedaço (e colecionar memórias de cada um que você comeu).

Bolo de Laranja para Colecionadores Inveterados (rende 10 fatias generosas)

Ingredientes:

  • 200g de manteiga
  • 2 xícaras de açúcar
  • 4 ovos
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 2 copos de suco de laranja

Modo de Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180 graus e unte uma forma de bolo com manteiga e farinha de trigo.
  2. Bata a manteiga derretida com o açúcar e as gemas. Adicione a farinha de trigo e bata até homogêneo.
  3. Acrescente o fermento e metade do suco de laranja e bata até uniforme.
  4. Asse durante 40 minutos (esse tempo pode variar um pouco de acordo com o forno de cada um).
  5. Ao retirar do forno, deixe esfriar alguns minutos e então despeje o restante do suco de laranja por cima uniformemente, NÃO desenforme até o suco ter sido absorvido.

PS: As ilustrações do livro são uma graça então quis compartilhar aqui! Parabéns para o artista Anttonio Pereira 🙂

 

Gênios loucos

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Em “Cadê você, Bernadete?”, Maria Semple conta a história da família Fox, meio louca mas genial. O pai, Elgie, trabalha na Microsoft, a mãe, Bernadete, é uma arquiteta de renome e a filha, Bee, tem um futuro promissor. E eles também tem uma cachorrinha chamada Sorvete. Parte do livro é escrito através de e-mails, bilhetes, cartas e notas de um personagem para o outro, o que é uma ferramenta narrativa interessante, pois nos permite ver os diferentes pontos de vista dos personagens dentro da mesma história.

No livro, Bee e Bernadete são mãe e filha mas são também melhores amigas, parceiras no crime. As duas tem uma relação de cumplicidade muito bacana. Porém o relacionamento de Bernadete com a filha se torna uma muleta emocional, ela faz disse seu foco  para impedir que ela olhe mais atentamente para as coisas que ela negligencia na sua vida. Logo no começo do livro, vemos que Bernadete contratou uma assistente virtual a qual ela encarrega de resolver praticamente tudo do seu dia-a-dia. Seu marido é um workaholic que trabalha desenvolvendo projetos de inteligência artificial, e que ficou famoso por sua palestra TED (!) mas que está distante da família. Bernadete também vive em guerra com a sua vizinha, Audrey, que ela considera uma chata e que também a detesta por achar que Bernadete é metida.

O livro é sobre a jornada tortuosa de Bernadete para reencontrar ela mesma. Ela, que vive enclausurada em um trailer sem contato com pessoas que não sua família, de repente se vê forçada a encarar os seus medos quando a filha propõe uma viagem a Antártida, o que gera uma série de problemas. Então ela desaparece. E Bee fica tentando montar o quebra-cabeça do passado da mãe para conseguir encontra-la.

O que eu mais gostei em “Cadê você, Bernadete?” foi o tom leve mas inteligente. Esse é um livro divertido, que fala do relacionamento familiar de um jeito diferente. Aqui Bee descobre que ninguém é perfeito, nem mesmo a mãe dela. Mas que isso não é ruim, é simplesmente normal. Um momento pelo qual todos passamos. Só que Bee descobre quem sua mãe é na Antártica.

E porque grande parte do livro se passa em meio a icebergs, geleiras e pinguins, a receita de hoje não poderia ser outra senão sorvete! Essa receita de hoje é bem light, então ninguém precisa se sentir culpado e é legal para fazer várias e servir para os amigos e para crianças como opção de lanche ou sobremesa.

Sorbet para Bernadete Fox (em torno de 15 unidades)

Ingredientes:

  • 700g de morango (se for ôrganico melhor ainda)
  • 150g de iogurte grego light
  • 1/2 xícara de mel
  • Suco de um limão siciliano
  • Adoçante ou açúcar mascavo a gosto
  • Copinhos de café descartáveis
  • Colherzinhas descartáveis

Preparo:

  1. Lave e tire as folhas dos morangos. Pique rusticamente.
  2. Jogue os morangos em uma panela e deixe cozinhar por alguns minutos. Junte o mel e o suco de limão (e o açucar se for colocar). Misture bem.
  3. Deixe esfriar um pouco então jogue no liquidificador e adicione o iogurte. Bata até ficar homogêneo. Teste para ver se está bom e se necessário adicione açúcar/adoçante.
  4. Distribua os copinhos de café em uma travessa de vidro e encha-os, deixando um espaço no final.
  5. Coloque no congelador e depois de meia hora coloque as colherzinhas bem no meio de cada copinho. Retorne para a geladeira e deixe por mínimo três horas antes de servir.
  6. Na hora de servir, tirar do congelador com 15 minutos de antecedência.

PS: Aqui tem o link para uma palestra muito louca, mas genial do TED 😉

PS2: Esse post também está no blog do Cantão, quem quiser dar uma olhadinha lá, é só clicar aqui 😉

No escuro

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Gillian Flynn é mais conhecida por seu livro “Garota Exemplar”, que foi transformado em um filme dirigido por David Fincher e estrelando o Ben Affleck, mas hoje quero falar de outro livro dela, o “Lugares Escuros” (que também irá virar filme, dessa vez com a Charlize Theron).

Em “Lugares Escuros”, acompanhamos a vida de Libby Day, uma mulher traumatizada pela perda de sua família em um massacre na sua casa quando ela tinha apenas sete anos. O testemunho da então pequena Libby foi essencial para mandar seu irmão mais velho, Ben, para a cadeia com uma sentença de vida atrás das grades. Logo no começo do livro, Libby é procurado por um grupo chamado “Kill Club”, que tem como hobby investigar casos famosos não resolvidos. O mais recente caso do grupo é o massacre da família Day e eles estão convencidos de que Ben é inocente.

Devido à forma como o romance é escrito, os vários pontos de vista em cada capítulo são usados ​​para avançar a investigação de Libby na busca da verdade e, finalmente, descobrir quem matou sua família e por quê. O enredo é revelado em camadas e o leitor não sabe ao certo como tudo vai se juntar no final. Esse livro não é rápido, se desenvolve lentamente, porém o desfecho é surpreedente (para mim, mais até do que o de “Garota Exemplar”). Na maior parte do livro, Libby tenta achar soluções mas é constantemente atrapalhada por outros, inclusive seu pai, o perdedor Runner,e até mesmo seu próprio irmão, Ben, que deveria ser o maior interessado na descoberta que ocasionaria sua liberdade.

Libby é uma personagem cheia de lugares escuros. Logo de cara fica evidente que o trauma pelo qual passou a deixou incapaz de levar uma vida normal. A protagonista, não é adorável, mas cresce no leitor ao sermos atraídos para o seu mundo. Acabamos sentindo sua solidão e seu medo do que existe no mundo real: dá vontade de cuidar de Libby, como se ela ainda fosse a menininha de sete anos que ficou sem família. Torcemos para ela, mas ao mesmo tempo nos perguntamos se realmente queremos saber as respostas. O que aconteceu nos momentos mais escuros da vida de Libby? Ben é culpado ou não?

Então pensando no livro, a receita de hoje é cheia de escuridão e segredos: Torta Fudge. Essa torta é densa e concentrada no chocolate. Essa torta é uma tentação de tão gostosa. Na última vez que eu fiz (que foi também a primeira), acabou rapidinho, ainda bem. Então se você quiser que dure, esconda em um lugar escuro que só você saiba.

Torta Fudge da Escuridão (serve de 8 a 10 pessoas)

Ingredientes:

  • 200 g de chocolate amargo
  • 200 g de manteiga
  • 1 xícara de açúcar de confeiteiro
  • 5 ovos
  • 1/3 xícaras de amido de milho

Modo de Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 180 ºC.
  2. Unte com manteiga uma assadeira redonda de 24 cm de diâmetro com fundo removível. Corte um quadrado de papel manteiga grande o suficiente para cobrir o fundo e sobrar. Feche o aro e dobre a sobra de papel para baixo, para que a massa líquida não escorra pelo encaixe. Corte também uma tira de 80 cm x 12 cm e forre a parede da fôrma. Espalhe uma camada fina de manteiga sobre o papel.
  3. Numa tábua, pique o chocolate e corte a manteiga em cubos. Transfira para uma tigela refratária grande.
  4. Derreta a manteiga com o chocolate em banho-maria no microondas. O tempo varia de acordo com a potência, então fique de olho e só deixe até o chocolate derreter e antes dele começar a cozinhar.
  5. Acrescente o açúcar ao chocolate, e misture com carinho com uma espátula.
  6. Quebre um ovo de cada vez numa tigelinha e transfira para outro recipiente – se um deles estiver estragado você não perde toda a receita. Com um garfo misture as gemas com as claras, sem bater.
  7. Em seguida, junte os ovos à massa de chocolate. Misture delicadamente com a espátula, com cuidado para não formar bolhas: esse é o segredo para o bolo ficar denso e bem cremoso.
  8. Por último, peneire o amido sobre a massa e misture até ela ficar lisa.
  9. Transfira para a fôrma preparada e leve ao forno preaquecido. Deixe assar por 20 minutos – o interior deve ficar úmido e sai do forno com cara de que ainda não está todo assado.
  10. Deixe esfriar por 20 minutos, cubra com filme e leve à geladeira por 1 hora para firmar antes de servir.

Da arte de perder

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No ano passado, eu li “Diga aos lobos que eu estou em casa” , de Carol Rifka Brunt, para um clube do livro que eu participo no Goodreads. Nele, June, a narradora, uma menina de catorze anos, está lidando com a morte recente de Finn, seu tio e padrinho, e sua pessoa favorita no mundo. O livro se passa nos anos oitenta, sendo que June mora em um subúrbio de New York, mas com visitas frequentes à cidade, que era onde o tio morava.

Finn era um artista conhecido e, quando sente que começa a sucumbir a AIDS, decide pintar um retrato das sobrinhas, June e Greta. A mãe de June concorda e leva as filhas para visitá-lo no seu apartamento. As irmãs tem um relacionamento difícil. Greta, um pouco mais velha e com um talento para cantar é a estrela da peça da escola, enquanto June é esquisita e solitária; gosta de ouvir o Réquiem de Mozart e de se imaginar vivendo na Idade Média. Ela se sente incompreendida por todos, só encontrando um igual em Finn, e por isso ela fica devastada com a morte dele. No enterro do tio, June descobre que ele tinha um namorado, Toby, e ela fica em choque ao imaginar que existia toda uma parte da vida dele que ela simplesmente ignorava. Toby tenta então fazer amizade com June (o que eu achei mega esquisito, porque ele é um adulto e tudo bem que ele está sofrendo, mas a menina tem 14 anos… Mas vá lá, licença poética). Enfim, depois de um tempo os dois acabam formando uma amizade da qual a base é a memória de Finn.

O interessante do livro é que ele fala de perda e de relações familiares sem nenhum filtro. Como a narradora é jovem, ela ainda não é madura para entender todas as interações de que participa, nem mesmo as suas próprias emoções. Para ser bem honesta, June é meio irritante. Mas no contexto do livro, é importante ela ser assim, tapada, ingênua e egoísta. Quem com catorze anos não era um pouco (ou muito) dessas coisas? Outra coisa bacana do livro é abordagem do tema artístico. O quadro que Finn pinta das sobrinhas vira alvo de especulação no mercado de arte, pois havia tempos que ele não exibia nenhum trabalho novo. Mas as irmãs tinham transformado o quadro em uma forma de comunicação entre elas. Se o papel da arte é expressar, então se era que elas já não haviam dado ao quadro seu melhor uso? Se o quadro era delas e para elas, por que elas teriam que expô-lo?

Quando eu terminei de ler esse livro, me lembrei de um poema da Elizabeth Bishop, “One Art”. Esse poema é de uma lindeza devastadora (como pode algumas linhas de palavras parecem um buraco negro de bonitezas e profundezas?). Assim como o livro, o poema fala que a perda é um aprendizado, que muitas vezes é doloroso, mas que pode também ser bonito de uma maneira peculiar. A arte de perder, como Bishop diz no poema, não é difícil de dominar. E não é, apesar de as vezes parecer, um desastre.

Como estamos falando de coisas perdidas, a receita de hoje é, claro, o Pain Perdu. Ou para nós brasileiros, a famosa rabanada. Aquele pãozinho que você já estava dando como perdido, com essa receita, ganha uma segunda vida ainda mais gostosa do que a primeira! Não sei porque a gente só como no Natal, na França eles comem quando dá na telha (rsrs).

Pain Perdu ou a nosssa maravilhosa Rabanada (serve quatro porções)

Ingredientes:

  • 2 pães franceses ou 4 brioches
  • 75g de manteiga
  • 1 ovos
  • 1 xícara a 1 xícara e meia de leite
  • 1/2 xícara de açúcar
  • 1/2 xícara de canela
  • 1 colher de chá de extrato de baunilha
  • Sorvete de baunilha para servir

Preparo:

  1. Bata com um garfo 1 ovo e 1 xícara ou mais de leite integral e tempere com uma pitada de sal e uma colherinha de açúcar, comum ou baunilhado. Adicione o extrato de baunilha.
  2. Cubra as fatias grossas de pão duro  (fatias de 1,5cm de espessura) com a mistura e deixe que absorvam rapidamente o líquido. Enquanto isso, derreta uma colher generosa de manteiga numa frigideira grande, em fogo baixo, para que a manteiga não queime.
  3. Retire as fatias de pão da tigela com um garfo, escorra o excesso de líquido e douro as fatias dos dois lados. No prato, com os pães ainda quentes, polvilhe com o açúcar e canela.
  4. Se quiser finzalizar com chave de ouro, sirva com sorvete de baunilha (ou melhor ainda de macadâmia da Haagen-Daaz).

PS: A ilustração de hoje faz menção ao livro. Quem leu/ler vai entender 😉

O cheesecake da Srta Elliot

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Hoje eu quero de falar um clássico feminino, Persuasão da Jane Austen. Eu, e quase todo o restante da população feminina mundial, adoro a Jane Austen. Sempre que passa Orgulho e Preconceito na TV eu sou obrigada a assistir, mesmo que o cabelo do Mr Darcy me dê um pouco de nervoso e que a cena deles se encontrando de madrugada de pijama seja pra lá de piegas. Enfim, Jane Austen é a parada em romance feminino e eu adoro todos os livros dela, uns mais do que outros. Persuasão, claro, se encaixa na categoria dos mais.

Em Persuasão, Anne Elliot deixou escapar o amor da sua vida, o Capitão Frederick Wentworth, porque ouviu os conselhos de sua melhor amiga.. Anne é a filha de um barão viúvo que gastou mais do que devia e agora está na pior (na pior mesmo, não igual a Marilene). Sua irmã mais velha é considerada uma beleza local mas é chata de doer. E Lady Russell é a sua melhor amiga, que serve para ela de mãe substituta, e a quem ela considera extremamente inteligente e tem como modelo de comportamento. Seguindo os conselhos de Lady Russell, Anne resolve romper o seu noivado com Frederick apesar de estar apaixonada por ele. Ele, fica ressentido de ela abrir mão do amor dos dois e vai embora seguindo uma carreira de grande sucesso na marinha. O começo do livro se passa nove anos depois desses acontecimentos, quando os dois se encontram por circunstâncias do destino, coisa e tal. É claro que quando eles se reencontram Anne fica abalada, e Frederick não resiste se vingar dela um pouquinho (tipo mulher rejeitada que malha horrores e depois passa na frente do ex de vestido colado). Mas é claro que nenhum dos dois superou o passado.

Persuasão é o meu Austen predileto porque eu adoro a Anne. Obviamente, como uma nerd de carteirinha, eu me identifico com sua tendência introspectiva de ficar em casa lendo livros (e se tivesse Netflix, aposto que a Anne tava dentro!), mas o que eu adoro na personagem é que ela é boa mas não infalível. Anne consegue analisar as pessoas e coisas ao redor com ternura, mesmo quando a situação é dolorosa para ela. E o Capitão Wentworth também é um herói digno porém falho; se deixa levar orgulho ferido, antes de reconhecer seus erros. É um romance interessante e cheio de nuances, nada a ver com o furacão de hormônios dos livros de hoje em dia, em que o par romântico se conhece e se apaixona perdidamente em cinco minutos.

Para ser bem honesta, eu não sabia qual receita combinava com esse livro. Estava quebrando a cabeça, quando de repente me veio um estalo. Persuasão é sobre um romance lento, que demora para chegar no ponto, que tem etapas diferentes. Igual ao cheesecake que o meu marido vive pedindo para eu fazer e eu nunca faço (porque fico com preguiça de todas as etapas! rsrs) mas então lá vai: cheesecake com calda de morango.

O cheesecake da Srta Elliot (serve de 8 a 10 fatias)

Ingredientes:

Massa:

  • 160g de biscoito maisena
  • 80g (7 colheres de sopa) de manteiga sem sal em temperatura ambiente
  • 1/2 colher de chá de canela

Recheio:

  • 450g de cream cheese
  • 150g de creme de leite fresco
  • 150g (1 xícara) de açúcar
  • 1 colher (sopa) de extrato de baunilha
  • 1 colher (sopa) suco de limão
  • 3 ovos

Calda:

  • 300g de morango
  • 100g (3/4 xícara) de açúcar
  • Suco de um limão

Preparo:

  1. Triture o biscoito no liquidificador ou processador.
  2. Misture ele com a manteiga e a canela, usando as mãos.
  3. Espalhe sobre uma forma de fundo falso, cobrindo todo o fundo dela, a que eu tenho é de 25 cm.
  4. Reserve. Preaqueça o forno a 160ºC.
  5. Bata o cream cheese e o creme de leite na batedeira até amaciar bem, e adicione aos poucos o açúcar em velocidade baixa. Acrescente a baunilha, o suco de limão e os ovos. Bate até que a mistura esteja homogênea.
  6. Coloque sobre a massa na forma e leve para assar por 30 a 40 minutos.
  7. O segredo é quando você olha por cima e está fosco, não brilhante, talvez com algumas rachaduras por cima.
  8. Deixe esfriar e leve à geladeira por pelo menos 4 horas. Tem que rolar uma paciência a la Anne Elliot aqui, porque esse tempo na geladeira é o que faz o cheesecake ficar na consistência certa. Desenforme.
  9. Agora faça a calda:  lave e retire os cabinhos do morango e pique grosseiramente. Coloque numa panela com o açúcar e o suco de limão. Aqueça em fogo baixo, mexendo de vez em quando até que tome consistência de calda. Se quiser uma calda mais lisinha, bata no liquidificador, ou pode servir mais rústica mesmo, com os pedaços de morango.

 

Impossível comer um só

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Esse ano estou lendo mais contos. Normalmente, eu sou uma garota de romances longos, quanto mais volumes melhor, mas nos últimos tempos me rendi ao charme dessas histórias mais breves, porém ainda cheias de insight. E o livro de hoje é um desses, “Um tal Lucas” de Júlio Cortázar é simplesmente uma delícia atrás da outra. É impossível ler só um, depois que você começa. Igual comer os cookies de chocolate que são a receita dessa semana. Os dois são absolutamente irresistíveis e você é obrigado a devorá-los, um atrás do outro.

Eu admito que, blasfêmia das blasfêmias, eu nunca tinha lido Cortázar (não me matem, como eu disse, estou lendo!). E no curso que estou fazendo, minha professora leu um trecho dele e me apaixonei pelo texto dele: divertido, charmoso e peculiar, mas profundo apesar de falar de assuntos ordinários. As vezes as idéias são tão originais que eu me pego rindo (como no primeiro conto do livro, Lucas e a Hidra), as vezes a simplicidade do texto é o que faz a história. A linguagem pode confundir em alguns momentos, então leia saboreando, para pegar todas as nuances. Tem cada conto tão bom, mas tão bom, que eu fiquei até meio em choque (hahahaha)! Enfim, leiam.

E como eu já disse, os cookies de chocolate que são a receita de hoje são os irmãos siameses dos contos do Cortázar. Essa receita é antiga (da minha adolescência, peguei com a irmã de uma amiga) e moleza de fazer. Felicidade instantânea! Só tem um problema sério: você vai MESMO comer um atrás do outro e não é, digamos assim, light. Então, antes de começar a comer, separe os que você vai comer mesmo e guarde o resto. Senão já era. Estão todos avisados.

Cookies de chocolate para o Sr. Cortázar

Ingredientes:

  • 2 xícaras e meia de farinha de trigo
  • 1 xícara de açúcar mascavo
  • Meia xícara de açúcar branco
  • 1 xícara de manteiga (equivale a uma barra) com sal derretida (pode ser no microondas mesmo)
  • 2 ovos inteiros
  • 400g de chocolate (ao leite ou amargo, o que você preferir) em barra cortado grosseiramente
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 1 colher de chá de essência de baunilha
  • 1 pitada de sal

Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180 graus.
  2. Despeje a farinha e os açúcares na tigela da batedeira. Adicione a manteiga derretida e bata um pouco até misturar.
  3. Adicione um ovo de cada vez, batendo a massa até cada um se incorporar. Adicione o sal, a essência de baunilha e o fermento em pó e bata até homogêneo.
  4. Coloque o chocolate e bata um pouco para que ele se espalhe por todas a massa.
  5. Unte duas assadeiras grandes e, com uma colher de sobremesa, faça bolinhas e distribua deixando um espaço generoso entre as bolinhas.
  6. Coloque para assar no forno pré-aquecido por 15 minutos, ou até os cookies ficarem com a bordinha dourada. Truque: se uma assadeira for ficar em cima da outra dentro do forno, na metade do tempo troque as duas de lugar para assarem por igual.
  7. Tenta não comer tudo de uma vez!

Igual, só que diferente

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O livro dessa semana é do tipo emocionante, sabe risadas e lágrimas. “A Resposta” ou em inglês, “The Help” (acho que já que não dava para ter o trocadilho do nome original, eles simplesmente preferiram trocar) conta a história de Skeeter, uma jornalista progressiva,  e Aibileen, uma doméstica na mesma cidade de Jackson, no Mississipi de 1960, no interior dos EUA.

Skeeter, diferentemente de suas amigas, foi para faculdade e se formou em jornalismo. Não está com pressa para casar (ela se acha pouco atraente e tem síndrome de Elba Ramalho -quem nunca?) e quando volta para casa quer saber onde está a empregada que trabalhou com seus pais a vida toda e ajudou a criá-la, Constantine.

Skeeter, que amava Constantine, fica horrorizada um dia quando Hilly, a líder do seu grupo de amigas (e o anti-cristo disfarçado), anuncia o projeto de banheiros separados para negros e brancos. Skeeter então tem a idéia de escrever um livro sobre o relacionamento entre as domésticas e seus empregadores, sobre como crianças que foram criadas por domésticas negras crescem para terem (ou não) os mesmos preconceitos dos pais. Ela convence Aibileen e Minny, a melhor amiga de Aibileen e empregada de Hilly, a ajudá-la no projeto. As tortas de Minny são famosas na cidade e seus dotes culinários são de dar água na boca.

O livro é cheio de amizades improváveis, de erros que se tornam acertos e de questionamentos sobre preconceito, amor e fé. As palavras que Aibileen ensina ao bebê branco de que cuida “You is kind, you is smart, you is important”, são o mantra que resume a moral do livro e demonstram que as vezes conhecimento não é inteligência, mas que o amor é capaz de transcender mesmo as barreiras mais arraigadas.

“A Resposta” virou filme e Octavia Spencer (Minny) ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, porque ela está mesmo fantástica, o filme porém se chama “Histórias Cruzadas” (sabe-se lá por quê). O filme é ótimo, mas como quase sempre eu prefiro o livro.

E por mais que possa parecer contraditório para quem leu o livro, esse livro me deu muita vontade de torta. Aí lembrei dessa torta rústica de pêssego, que é uma delícia e não é difícil de fazer. Uma torta meio erradinha, com um quê de fora da lei, mas que no final fica uma delícia. Ou seja, tudo a ver com “A Resposta”.

Torta Rústica de Pêssego com Tequila (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • Para a massa:
  • 1 xícara e meia de farinha
  • 125g de manteiga
  • 1 colher de sopa de maizena
  • 1 colher de chá de sal marinho
  • 1 ovo
  • 1 colher de sopa de vinagre de maçã
  • 1 colher de sopa de água gelada
  • Para o recheio:
  • 2 colheres de sopa de tequila
  • 1 colher de sopa de suco de limão fresco
  • 1 colher de chá de raspas de limão
  • 1 colher de sopa de maizena
  • 2 pêssegos maduros
  • 2 colheres de sopa de açúcar mascavo
  • 1 colher de chá de creme de leite fresco

Preparo:

  1. Combine a farinha, o maizena e o sal no processador de alimentos.
  2. Corte a manteiga em cubos de meio centímetro, coloque sobre a farinha e pulse algumas vezes.
  3. Numa tigela pequena, mexa juntos o ovo, vinagre, a água e metade do açúcar. Despeje a mistura no processador e pulse algumas vezes. A massa deve ficar com aparência meio pedaçuda.
  4. Uma vez que a mistura líquida tenha sido incorporada, retire a massa do processador. Misture com as mãos e se a massa estiver uniforme (se a massa não estiver uniforme, coloque um pouco mais de água e mexa mais)., faça um disco e embrulhe com plástico. Deixe descansar por pelo menos 30 minutos.
  5. Junte a tequila, o suco de limão e o maizena em uma tigela pequena. Misture.
  6. Pré-aqueça o forno a 210 graus. (É importante o forno estar bem quente, pois isso que faz com a massa fique crocante).
  7. Retire a massa da geladeira e abra a massa com um rolo até com que ela fique com 0,5 cm de altura.
  8. Coloque a massa sobre um papel próprio para assar, sobre a assadeira que você irá utilizar.
  9. Arrume os pêssegos sobre a massa de um jeito bonito, mas lembre de deixar pelo menos 4cm para fechar por cima do recheio. Depois de arrumar os pêssegos feche a torta com os dedos, com cuidado para que as frutas fiquem seguras dentro da massa.
  10. Por cima espalhe o creme de leite e depois polvilhe com o restante do açúcar. Adicione as raspas de limão. Deixe esfriar na geladeira por 15 minutos.
  11. Asse por 45 minutos, até 1 hora se achar necessário (varia de forno pra forno). Retire do forno quando a massa estiver dourada. (Se você achar que a massa está assando rápido demais diminua a temperatura para 180 graus).
  12. Deixe esfriar por pelo menos 1 hora antes de servir, mas depois manda brasa!

Gostinho de infância

gemeas-web

“We’re all completely beside ourselves” da Karen Joy Fowler é um livro estranho. Se ele é estranho bom, ou estranho ruim deve depender do leitor, mas no meu caso achei estranho bom. No começo do livro, fiquei um pouco irritada com a narradora, Rosemary. Ela é meio enigmática e, como ela mesma confessa, pouco confiável. Mas depois de um tempo, entrei no clima e comecei a curtir justamente o não saber que antes achava irritante. Assim como Rosemary, você fica tentando descobrir as coisas, tentando entender (mesmo que o entendimento completo não seja possível).

O livro conta a história de Rosemary e sua família, principalmente focando no relacionamento entre Rosemary, seu irmão Lowell e sua irmã adotiva Fern. E o que acontece quando um dia Fern simplesmente “desaparece”. Não quero estragar surpresas para ninguém então, quem não quiser pule a próxima frase. Continuar lendo