Superbonder

Eu que amava

(amo? amava? amaria?)

seus cacos

Cada pequeno

(mínimo? microscópico?)

estilhaço

Esfolava os dedos tentando juntar cada

pedaço

(sangrava, cantava, louvava)

Sonhava devaneios em cola quente

(superbonder, sapateiro, pritt)

Tentando chegar no seu

inteiro

(todo, miragem, mundo)

 

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Pódio

Horas e horas na academia

Pra se livrar dos pneus, das calorias, das angústias

da terapia

Mulher

Dolorida

 

Décadas e décadas no escritório

Pra esquecer dos preconceitos, das contas, da babá, do preço

da gasolina

Profissional

Endurecida

 

Séculos milenares na cozinha,

Na cama, na casa, no jardim, muda

esquecida

Metade

Mal resolvida

 

Minutos e então segundos

Até o fim do mundo

Estrada, mar, pista,

rodovia

Para ser o que, quando, onde, com quem,

achada, perdida,

Louca

Varrida

 

Em homenagem a todas as mulheres fortes e maravilhosas que estão nesse mundo fazendo TODA a diferença. Vocês são OURO e quem estabelece nossos papéis (e limites) nesse mundão somos nós mesmas. Esse post foi inspirado em todas essas mulheres que cheias de vontade e determinação estão detonando essa Olimpíada: meus assombrados parabéns para cada uma que consegue fazer o impossível, possível (e belo).

Entrelinha

Eu te amo nos cantos

Aqueles que são difíceis de limpar

Aonde você precisa trocar o bico do aspirador, senão não sai

Fica ali escondido, esperando

 

Eu te amo nas bordas

Aquelas que mantém todas as coisas dentro

Aonde se separam o lá e o aqui, líquidos e sólidos

Fica no limite, protegendo

 

Eu te amo nas entrelinhas

Aquelas que têm os os significados

Aonde o branco não é vazio, é promessa

Fica sempre em silêncio, gritando

Ausência

Se você não vem eu fico vazia

Tem espaço vago

Na garagem

Na cama

Na cozinha

 

De que adianta

Todo esse espaço

Sem (a sua) companhia?

 

Se você não vem a coberta aumenta

O tempo alarga

O chocolate não acaba

 

Sem você é silêncio

Ou o som da TV

Páginas do livro virando

Até a madrugada finalmente

Amanhecer

 

Sem você o sono corre

Mas não alcança

O coração bate

Mas não dança

Poética

viviane-web

Semana passada eu achei um livro que eu adoro ao abrir umas caixas da mudança, “Receita pra lavar palavra suja” é uma coletânea de poemas da Viviane Mosé. É um livro fino, em todos os sentidos da palavra.

Viviane Mosé é uma das poetisas brasileiras de maior expressão dos últimos tempos. O que eu adoro nesse livro é a contraposição de delicadeza e força que existe nele. Os poemas da Viviane se apropriam do português com esperteza, mas sem perder o lirismo. As palavras flutuam em diferentes significados como é natural na poesia, mas em Viviane elas exibem um peso também. Como nesse poema abaixo:

“Ando com um balde de água embaixo de cada olho.

Preciso ir bem devagar

Senão derrama.”

Eu não leio poesia com frequência, sou mais dos romances mesmo. Mas acho que os poemas nesse livro são uma delícia, um livro leve mas cheio de conteúdo e com alguns momentos de surpresa. Logo o equivalente desse livro para mim é uma massa simples mas especial. Sustância e sabor, sem perder a leveza. Prato para gente esperta, mas que gosta de poesia.

Taglietelle Poético (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 500g de tagliatelle de boa qualidade
  • Raspas de 2 a 3 limões sicilianos
  • 2 colheres de sopa de manteiga
  • 150g de queijo de cabra
  • 1/4 de xícara de aroeira (pimenta rosa)
  • Azeite e sal a gosto

Preparo:

  1. Coloque a água do macarrão para ferver em uma espagueteira e adicione sal.
  2. Enquanto a água ferve, rale os limões e reserve.
  3. Coloque um fio de azeite na água e adicione o macarrão, com atenção ao tempo de cozimento indicado. Acompanhe, pois nem sempre o pacote coloca o tempo ideal.
  4. Escorra o tagliatelle e então coloque na travessa que irá servir. Coloque a manteiga em duas partes e misture bem. Teste se está bom de sal, e se necessário coloque mais.
  5. Adicione as raspas de limão aos poucos para ficar bem homogêneo.
  6. Adicione o queijo de cabra (se estiver inteiro corte em cubinhos de 1 cm) e a pimenta. Misture e sirva ainda quente.

 

Matemática

Esse substantivo me pertence

Esse adjetivo é meu eixo

Esse verbo inflexível

É meu para todo sempre

 

Pode parecer irracional

Mas cada frase é tangente

Se colocar cada uma no plano certo

Quem sabe nossas retas não se encontram no infinito?

 

E se a nossa menor distância não fosse um ponto

E sim uma conjunção aditiva

&

Amor em capa dura

capa-web

Meu amor não é leve

É rígido, espesso

Suas páginas de pólen

São firmes, têm alta gramatura

Cada letra tem relevo

 

Meu amor não transborda

É organizado em parágrafos perfeitos

Epígrafes elegantes em

Times New Roman

Cheias de cultura

 

Meu amor tem pausas de suspense

Delírios descritivos em rima

Sentenças adversativas

Reviravoltas e

Pontos de clímax

 

Meu amor é confesso

Tem métrica, contexto

Não se espalha em haicais perdidos

Tem orgulho

Da assinatura

 

Meu amor é constante

Espera em Proust

E Graciliano Ramos

Conhece todos os círculos de Dante

 

Ah, meu amor é por extenso

Mesmo na fúria homicida

Se derrama em quixótica poesia

Volumes em sequência

Empoeirando na estante