O post esquecido

Gente, eu consegui parar um pouquinho na minha rotina mãe 🙂 (êeee, o Theo nasceu e está lindo, fofo, gostosíssimo) e ia escrever um pouquinho de um post novo aqui pro blog quando encontrei esse post esquecido :0 E esse livro é tão, tão legal, que resolvi postar! O post novo fica prometido para em breve com mais noticias do meu fofolindo. Um beijo!

“Toda a luz que não podemos ver” do Anthony Doerr estava na minha lista de leituras há séculos e, gente, depois que eu comecei fiquei totalmente obcecada e me perguntando porque não tinha começado antes. O livro, que conta a história de Marie Laure, uma menina francesa cega, e Werner, um órfão alemão, antes, durante e um pouco depois da Segunda Guerra Mundial é uma leitura deliciosa.

Marie-Laure é filha de um chaveiro que trabalha no Museu de História Natural de Paris. Seu pai, Daniel LeBlanc, é também um artesão de mão cheia e produz para a filha uma miniatura minuciosa do bairro em que moram para que a filha possa aprender a andar pela redondeza sozinha. Mais tarde, quando pai e filha vão a Saint-Malo, ele faz o mesmo com a nova cidade, sempre tentando possibilitar um pouco de segurança para a filha. O relacionamento entre os dois é uma das partes tocantes do livro, assim como as relações que a menina estabelece em Saint-Malo com seu tio-avô Etienne e com Madame Manec -retratos sensíveis e cheios de sutileza.

Werner e sua irmã Jutta crescem em um orfanato e desde cedo fica claro que os dois têm uma inteligência fora da curva, o que se torna mais evidente após os irmãos encontrarem um rádio e Werner ficar fascinado por seu funcionamento e mecanismos. Em certo momento, o talento do menino para engenharia, uma tecnologia essencial na guerra, o levam para dentro do exército alemão na tentativa de escapar um futuro aterrador como um operário de minas, deixando para trás sua irmã. Werner é um menino brilhante e sensível, nenhum pouco o retrato padrão do soldado nazista (esse papel deixamos com o “vilão” do livro, o Sargento-Mor Von Rupkel) e sua narrativa é rica em questionamentos e um amadurecimento acelerado pelo cenário da guerra.

Eu, imagino que assim como todos que leram, fiquei aguardando ansiosamente o momento em que as duas histórias, a de Werner e a de Marie-Laure, fossem se cruzar e devo dizer que apesar de toda a expectativa, o encontro não decepcionou. Esse livro é lindo, gente! Não à toa ganhou o Pulitzer: seus capítulos são curtos mas tão cheios de detalhes, os personagens tratados com tanta delicadeza que vamos nos apaixonando por eles. Aviso aqui: esse livro tem 528 páginas e eu li em menos de uma semana, ou seja, se prepare para o vício!

Na história, Marie-Laure é apaixonada por comida: suas descrições das iguarias que come são maravilhosas! Me marcou especialmente quando ela descreve comer pêssegos em calda e por isso a receita dessa semana não poderia deixar de contê-los: mini panquecas de pêssegos em calda com ricota.


Mini panquecas de ricota para Marie-Laure (faz aproximadamente 20 discos pequenos)

Ingredientes:

  • Massa:
  • 1 xícara (chá) de farinha de trigo
  • 1 pitada de sal
  • 2 ovos
  • 1 ¼ de xícara de chá de leite
  • ⅓ de xícara chá de creme de leite fresco
  • 1 colher de sopa de açúcar
  • óleo para untar

 

  • Recheio:
  • 100g de ricota de boa qualidade
  • 3 metades de pêssegos em calda cortados pequenininhos

 

  • Calda de açúcar:
  • 3 colheres de sopa de açúcar refinado
  • 3 colheres de sopa de água
  • raspas de limãoModo de preparo:
  1. Numa tigela, coloque todo os ingredientes da massa, menos as raspas de limão, e misture bem com um fouet (batedor de arame), até que a massa fique lisinha. Deixe descansar por 1 hora, fora da geladeira.
  2. Aqueça uma frigideira antiaderente, de fundo grosso, de cerca de 22 cm de diâmetro, e espalhe um pouquinho de óleo com um pincel ou papel-toalha dobrado, para não queimar os dedos.
  3. Dê uma boa mexida na massa e misture os opcionais que quiser usar. Com uma mão, levante a frigideira e com a outra, regue a massa com uma concha. Faça um movimento circular com a frigideira de modo a cobrir todo o fundo. Coloque a frigideira sobre o fogo baixo e, quando as bolhas começarem a aparecer, com auxílio de uma espátula de borracha, vire a massa para dourar do outro lado. O processo todo leva menos de 3 minutos por disco. Transfira a panquequinha para um prato, espalhe mais um pouquinho de óleo e repita o procedimento, até terminar a massa.
  4. Recheie com uma colher de sobremesa rasa de ricota e os pêssegos cortados e enrole com os dedos.
  5. Para fazer a calda: numa panelinha, misture o açúcar, a água e o conhaque e leve ao fogo médio. Quando ferver, deixe cozinhar por 1 minuto, até que o açúcar tenha dissolvido. Desligue o fogo e deixe esfriar. Por último, jogue por cima as raspas de limão e misture gentilmente. Jogue por cima das panquequinhas.

Eu e a barriga

Amigos da Cozinha Literária,

este post é em parte pedido de desculpas, em parte explicação, em parte comemoração. Explico; não tenho escrito aqui e fico me sentindo em falta com todo mundo que lê e que apoia esse projeto tão querido. A falta de posts não aconteceu à toa: estou no final da gravidez e vou contar para vocês que esse moleque que vai nascer não me deu refresco até agora 😉

Estamos muito felizes com a chegada do pequeno (qualquer dia agora!), mas até hoje continuo enjoando e, por isso mesmo, pensar em comida, fazer comida e escrever sobre comida se tornaram tarefas no começo árduas, depois impossíveis. Pela primeira vez na vida, se eu pudesse trocaria iguarias maravilhosas por pílulas de astronauta – logo eu, que sempre adorei uma boa comilança! Bem que dizem que a maternidade muda as pessoas.

Quis escrever aqui porque estava com saudade e também para dizer que o blog continua -não sei exatamente quando, mas continua. Quem sabe no próximo post já venho com as papinhas! Me desejem (e para esse mini-humano que vem aí) sorte ❤

um beijo para todos,

Carol

Superbonder

Eu que amava

(amo? amava? amaria?)

seus cacos

Cada pequeno

(mínimo? microscópico?)

estilhaço

Esfolava os dedos tentando juntar cada

pedaço

(sangrava, cantava, louvava)

Sonhava devaneios em cola quente

(superbonder, sapateiro, pritt)

Tentando chegar no seu

inteiro

(todo, miragem, mundo)

 

Pódio

Horas e horas na academia

Pra se livrar dos pneus, das calorias, das angústias

da terapia

Mulher

Dolorida

 

Décadas e décadas no escritório

Pra esquecer dos preconceitos, das contas, da babá, do preço

da gasolina

Profissional

Endurecida

 

Séculos milenares na cozinha,

Na cama, na casa, no jardim, muda

esquecida

Metade

Mal resolvida

 

Minutos e então segundos

Até o fim do mundo

Estrada, mar, pista,

rodovia

Para ser o que, quando, onde, com quem,

achada, perdida,

Louca

Varrida

 

Em homenagem a todas as mulheres fortes e maravilhosas que estão nesse mundo fazendo TODA a diferença. Vocês são OURO e quem estabelece nossos papéis (e limites) nesse mundão somos nós mesmas. Esse post foi inspirado em todas essas mulheres que cheias de vontade e determinação estão detonando essa Olimpíada: meus assombrados parabéns para cada uma que consegue fazer o impossível, possível (e belo).

Entrelinha

Eu te amo nos cantos

Aqueles que são difíceis de limpar

Aonde você precisa trocar o bico do aspirador, senão não sai

Fica ali escondido, esperando

 

Eu te amo nas bordas

Aquelas que mantém todas as coisas dentro

Aonde se separam o lá e o aqui, líquidos e sólidos

Fica no limite, protegendo

 

Eu te amo nas entrelinhas

Aquelas que têm os os significados

Aonde o branco não é vazio, é promessa

Fica sempre em silêncio, gritando

1 ano de Cozinha Literária!

1ano

Hoje o Cozinha Literária faz um ano! Gente, eu estou superfeliz com todo o retorno que o blog vem tendo; é muito bacana ver que as pessoas lêem e ficam animadas com os livros e as receitas 🙂 Como blogueira iniciante eu não tenho muita prática nas coisas internetsistícas, então para mim é tudo novo (as vezes um pouco difícil, as vezes divertido) e tenho aprendido muito com o blog e com as pessoas que ele trouxe. Então fica aqui o meu muito muito obrigada para cada um de vocês que lê, que comenta e experimenta, enfim para quem faz parte dessa pequena história que comecei por aqui.

Como não podia deixar de ser, eu vou postar aqui uma receita e um livro, mas dessa vez o quê conecta eles sou eu! (ô humildade! rsrs) Quero postar hoje um dos meus livros preferidos e também meu bolo de aniversário favorito. Hoje pode, né?

O livro de hoje é nada menos do que um clássico brasileiro, Capitães da Areia do Jorge Amado. Esse livro, gente, esse livro é tão emocionante, é uma pedrada no coração. Quem conseguir ler e dizer que não ficou com o coração apertado ganha um doce (mas é impossível a não ser que você seja um robô). A história de Pedro Bala, Dora e o Professor é um clássico por um motivo simples: foi escrito em 1937 mas continua sendo atual até hoje.

Nesse livro, Jorge Amado faz um milagre: ele começa o livro com o protagonista cometendo um ato horrível, que normalmente o leitor não perdoaria de jeito nenhum. Mas conforme a narrativa vai evoluindo, você entende melhor quem são esses personagens e o que faz com que cada um deles lute pelo dia seguinte. Eu me apaixonei pelos meninos perdidos que se chamam de Capitães da Areia, e até hoje, muitos anos depois, ainda penso nesse livro como um marco, pois me fez questionar muita coisa que antes eu não havia parado para pensar.

Eeee, a receita de hoje é o bolo delícia de cenoura com calda de chocolate! Eu amo, amo, amo essa combinação. Então segue aí!

Bolo de cenoura com calda de chocolate

Ingredientes:

Para o bolo:

  • 3 cenouras
  • 4 ovos
  • 1 xícara de óleo de canola, milho ou girassol
  • 1 1/2 xícara de açúcar
  • 2 xícaras de farinha de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 1 pitada de sal
  • manteiga e farinha de trigo para untar e polvilhar

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 180ºC. Unte uma fôrma redonda de 23 cm de diâmetro com manteiga. Polvilhe com farinha de trigo.
  2. Coloque a farinha, o sal e o fermento em uma tigela, passando pela peneira. Misture delicadamente e reserve.
  3. Lave e descasque as cenouras. Descarte a extremidade superior e corte as cenouras em rodelas.
  4. Quebre os ovos um a um, em uma tigela e coloque no copo do liquidificador. Junte as cenouras, o óleo e o açúcar e bata até formar uma mistura homogênea.
  5. Junte a mistura do liquidificador à tigela com a farinha, o fermento e o sal. Com um batedor de arame, misture delicadamente até ficar liso e homogêneo.
  6. Transfira a massa para a assadeira e leve ao forno preaquecido por cerca de 50 minutos. Para saber se o bolo está bom, espete um palito na massa: se sair limpo é sinal de que o bolo está assado e pode ser retirado do forno. Caso contrário, deixe por mais alguns minutos até que asse completamente. Deixe esfriar por 15 minutos antes de desenformar.

Para a calda:

Ingredientes:

  • 1/2 xícara de chocolate em pó
  • 1/3 de xícara de açúcar
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • 1/3 de xícara de água

Preparo:

  1. Numa panela pequena junte o chocolate, o açúcar, a manteiga e a água. Leve ao fogo médio mexendo sempre com um batedor de arame.
  2. Quando começar a ferver, cozinhe por cerca de 4 minutos, sem parar de mexer. Assim que a calda começar a desgrudar do fundo da panela é sinal de que está pronta.
  3. Regue a calda quente sobre o bolo já frio e desenformado e deixe esfriar. Sirva a seguir.

Feliz Natal!

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Final de ano é sempre uma loucura, mas do tipo bom: festas, encontros, amigos ocultos. E Natal. Eu adoro o Natal! É o momento de refletir sobre o ano que passou, como podemos trazer o Evangelho mais para as nossas vidas e como podemos ser pessoas melhores. E ainda por cima tem família, amigos, presentes e comida! Essa energia do Natal é contagiante.

O post do hoje é diferente: como todas as criancinhas, eu fiz uma listinha pro Papai Noel (porque esse negócio de presente só para crianças eu não aceito! Papai Noel existe e pronto). Como vocês podem imaginar, é uma listinha cheia de…. livros! Mas também quero compartilhar com vocês minha listinha de receitas para testar em 2016, um monte de coisas gostosas que vão fazer do ano que vem um ano mais saboroso. Quem quiser compartilhar comigo os seus pedidos para o Papai Noel, fique à vontade!

Listinha do Papai Noel da Carol (são doze, um para cada mês do ano… rsrs)

  1.  “O amante japonês” da Isabel Allende
  2. “Desaparecidas” da Lauren Oliver
  3. “O rouxinol” da Hannah Kristin
  4. “Glass Sword” da Victoria Aveyard
  5. “Toda luz que não podemos ver” do Anthony Doerr
  6. “O assassino cego” da Margaret Atwood
  7. “Para onde vai o amor?” do Fabrício Carpinejar
  8. Histórias de cronópios e de famas” do Julio Cortázar
  9. “A garota na teia de aranha” do David Lagencrantz
  10. “Fates and furies” da Lauren Groff
  11. “A brief history of seven killings” do Marlon James
  12. “You’re never weird on the internet (almost)” da Felicia Day

Nessa listinha, tem para todos os gostos! Eu sou bastante eclética e quero sempre ler coisas diferentes, então se você ainda não comprou presente para alguém, fica a dica: livros são sempre a boa :))

Listinha de receitas da Sra Noel (para começar 2016 cheia de idéias novas)

  1. Panzanella do Panelinha
  2. O Gnudi do Jamie Oliver
  3. A Tarte Tartin da Rainha da Cocada
  4. O Cordeiro à indiana do Claude Troigros
  5. A Quiche Lorraine do Chef e a Chata
  6. A Sopa Grega do DALS
  7. Os Cookies de Brownie da Smitten Kitchen
  8. O Guacamole da Zazá Piereck
  9. O Salmão em crosta de amêndoas da Sal de Bolinhas
  10. Os Bolinhos de arroz da Technicolor Kitchen
  11. As Pink Lemonade Bars da Cozinha dal Bó
  12. O Bolo de banana e aveia da Gordelícias

Não garanto que vou fazer, comer, ler tudo mas não custa sonhar, né?

Um beijo e um feliz Natal para todos!

 

Heranças

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Semana passada foi aniversário da minha mãe (parabéns! clap, clap, clap <3) e também da minha avó. Por causa disso eu estou num clima meio nostálgico e vou falar hoje aqui de um livro sobre família: “Os catadores de conchas” da Rosamunde Pilcher. Quem me deu esse livro há séculos atrás foi a minha mãe (na verdade ela não me deu, emprestou… Mas depois acabou me dando mesmo. Mãe é mãe), e ela disse que aquele tijolão enorme era emocionante. Eu adoro tijolões, especialmente os do tipo emocionante.

Em “Os catadores de conchas”, Pilcher conta a história da família Keeling, especialmente a de Penélope Keeling, de quem acompanhamos a vida em dois momentos diferentes; quando ela era ainda jovem, durante a Segunda Guerra Mundial e depois como uma senhora, matriarca da família. Eu adorei a Penélope, e (acho que não por coincidência) ela me lembrou muito a minha mãe e também a minha avó: uma mulher forte e determinada, que nunca se deixa abater pela vida. Penélope tem três filhos, Nancy, Olivia e Noel, e vemos logo que os três são muito diferentes entre si. Penélope também é a filha de um pintor que teve seu trabalho postumamente reconhecido e herdeira de um lindo quadro dele, “Os catadores de conchas”, que para ela tem valor sentimental.

No começo do livro, Penélope está hospitalizada por causa de problemas saúde. Ela logo decide que não vai ficar desperdiçando tempo no hospital, e se dá alta. A experiência de encarar a própria mortalidade porém, faz com que ela queira retornar à Cornualha, onde viveu momentos importantes. Ela pede aos filhos, um de cada vez que viajem com ela. Um a um, os três negam acompanha-la, mesmo a sua filha favorita, Olivia. Mas, de repente eis que surgem candidatos para servirem de Sancho Panza, Antonia, uma moça ligada a Olivia, e Danus, um jovem jardineiro. Esse trio improvável segue rumo a Cornualha e às lembranças de outros tempos.

O livro é mesmo emocionante como disse a minha mãe. Eu me peguei desejando conhecer Penélope pessoalmente, querendo sentar com ela num jantar improvisado maravilhoso (a especialidade dela), olhando a paisagem, aprendendo com quem tem muita história para contar. Por isso, a receita de hoje tem esse mesmo clima improvisado, descomplicado: picadinho. Picadinho é fácil de fazer e você meio que pode inventar o seu com o que estiver na geladeira, que não dá muito errado. Esse aí debaixo é o que eu faço aqui em casa: coisa de família.

Picadinho a la Penélope (serve até 5 pessoas)

Ingredientes:

  • 500 g de contra-filé em bifes
  • 1 abobrinha
  • 1 pimentão amarelo
  • 200 g de champignon
  • 1 cebola roxa
  • 3 dentes de alho
  • 1 pedaço de gengibre (cerca de 2 cm)
  • 2 punhados de cebolinha picada
  • 1/2 xícara de amendoim torrado, sem pele
  • 1/2 xícara de molho shoyu
  • 2 colheres de sopa de maizena
  • 1/2 xícara de água
  • Azeite, sal e pimenta do reino

Preparo:

1. Corte a carne em tiras finas e transfira para uma tigela. Não volte para a geladeira: ela precisa estar em temperatura ambiente para não esfriar o fundo da panela na hora de cozinhar.

2. Lave e seque a abobrinha, o pimentão, e a cebolinha. Corte a abobrinha ao meio, no sentido do comprimento, retire as pontas e fatie em meias-luas (não muito finas). Descarte as sementes e corte o pimentão em quadrados médios. Fatie fininho os talos de cebolinha.

3. Num pilão, soque o amendoim até formar uma farofa grossa. Reserve.

4. Descasque a cebola, o dente de alho e o gengibre. Corte a cebola em cubos médios e o alho, em tiras finas. Se não tiver um ralador para gengibre, pique bem fininho.

5. Leve ao fogo médio uma panela wok (ou uma frigideira grande). Enquanto isso, numa tigelinha, coloque a água e misture o amido de milho até dissolver.

6. Quando a frigideira estiver quente, regue com 1 colher sopa de azeite, junte as tirinhas de carne e deixe dourar por 2 minutos. Só mexa quando descolar da panela. Tempere a carne com sal e pimenta (mas não muito, porque depois colocamos o shoyu e ele já bastante salgado).

7. Afaste as tiras de carne para as laterais da panela e regue o centro com o azeite restante. Refogue os cubos de cebola e pimentão por mais 2 minutos, sem misturar a carne.

8. Junte o alho e o gengibre, e misture, inclusive com a carne. Refogue por mais 1 minuto.

9. Agora é a vez da abobrinha e do champignon: junte, misture bem e deixe cozinhar
por 2 minutos, até dar uma leve bronzeada – a ideia é que fiquem bem douradinhos.

10. Regue com o shoyu e misture bem. Em seguida, junte o vinagre e o amido dissolvido em água. Mexa bem até formar um molho grosso, por 2 minutos. Salpique o picadinho com o amendoim e as fatias de cebolinha. Eu gosto de servir com arroz cateto 😉

Ausência

Se você não vem eu fico vazia

Tem espaço vago

Na garagem

Na cama

Na cozinha

 

De que adianta

Todo esse espaço

Sem (a sua) companhia?

 

Se você não vem a coberta aumenta

O tempo alarga

O chocolate não acaba

 

Sem você é silêncio

Ou o som da TV

Páginas do livro virando

Até a madrugada finalmente

Amanhecer

 

Sem você o sono corre

Mas não alcança

O coração bate

Mas não dança

Melância

O restaurante estava lotado hoje. Desde de manhã tinha sido frenético, como se eu estivesse em plena São Silvestre. Só mais um kilometro, eu fiquei pensando mentalmente enquanto cortava os filés. Só mais um kilometro, enquanto preparava o Beurre Blanc. Só mais um quilômetro, enquanto empratava o cherne com purê de banana verde. E assim foi. Agora finalmente posso sentar e respirar de novo. Sensação de dever cumprido, mas bem sei que amanhã começa tudo de novo.

Não estou com apetite para comida de verdade. Depois de tantas horas só pensando e executando os pratos elaborados do restaurante, acho que meu cérebro está rejeitando qualquer coisa que pareça gourmet. Além disso tem o calor; tá mesmo um calor infernal e dentro da cozinha é sempre pior ainda. Meio que tira a fome, essa temperatura inóspita.

Fico sentada aqui na ilha central da cozinha, olhando os lavadores terminarem a louça para amanhã, tentando decidir se como alguma coisa ou se simplesmente vou pra casa. E então vejo a melancia no cantinho da bancada de inox.

A melancia está aberta, cortada na metade. Eu consigo ver sua casca verde, seu miolo rosa e suas sementes pretas. Tem poucas sementes essa melancia. As sementes parecem gotinhas de nanquim espalhadas com precisão geométrica, como se alguém tivesse medido com régua e compasso, e depois pintado uma a uma. É arte essa fruta. Não tem aquele negócio de que a natureza tem a sequência de Fibonacci em várias coisas e por isso a gente acha essas coisas mais harmônicas? Deve ter sequência de Fibonacci nessa melancia.

Levanto e pego uma faca afiada no faqueiro, a minha faca. Pego a melância, que é mais leve do que parece, e corto exatamente na metade. A faca desliza fácil até chegar na casca, onde eu tenho que fazer um pouco mais de esforço. Vou cortando com cuidado, e no final vejo que cortei ela toda em cubinhos perfeitos, por hábito mesmo. Depois de um tempo trabalhando na cozinha, certas coisas viram automáticas.

Coloco os cubinhos em um potinho bonito de cerâmica e me sento perto da janela, um copo de água com gelo do lado. O vento sopra quente no meu rosto e eu como o primeiro cubinho rosa. Tem gosto de infância, de verão, de horas a fio sem nada e tudo pra fazer.

Aquele pedacinho esponjoso me leva de volta à casa do Lipe. Cada mordida solta uma aguinha doce e me lembro da tia Gisele me entregando um pote enorme de plástico cheio de melancia, enquanto a gente ficava estendido secando no deque da micro piscina deles. De comer um atrás do outro enquanto o sol queimava meu rosto, o líquido escorrendo pelo cantinho da boca. O Lipe rindo da minha falta de graça, ou como diria a minha mãe, de compostura. Modos, Mariana. Modos.

Como um cubinho menos doce, aquela parte mais esbranquiçada que fica antes da casca. Lembro do Lipe falando que melancia era isopor com adoçante. E de como a gente riu dessa besteira, como se fosse genial. Era tão bom ter dez anos!

Naquela época a gente ainda contava tudo um pro outro. Iamos para todos os lugares juntos, irmãos siameses. Um, a sombra do outro. Um dia você era Um, no outro Sombra. Naquela época, eu não podia conceber passar um dia inteiro sem falar com ele. Era tão necessário que as vezes, se eu pensava alguma coisa, era como se aquele pensamento não existesse se o Lipe não soubesse dele. Ele era o meu portal para a realidade, e eu achava que ia parar de existir se ele não estivesse ali. A gente existe sem a nossa sombra? Ou a sombra existe sem a gente? Tem alguma diferença entre um e outro?