A la Hitchcock

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“A garota no trem” da Paula Hawkins foi um mega sucesso, daqueles que parecem estar em todos os lugares e em cinco minutos já está pronto para virar filme em Hollywood. Então, é claro, eu fiquei curiosa e peguei um final de semana preguiçoso para conferir.

O thriller conta a história de Rachel, uma mulher em crise: ela acabou de se separar do marido, que se casou com a amante (e agora tem um bebê), mora de favor na casa de uma amiga e pega o trem para Londres todos os dias de manhã para fingir que está indo para o emprego que perdeu. Isso sem contar seu verdadeiro hobby: garrafas e mais garrafas de vinho. Mas é pela janela do trem de todo dia que ela passa a acompanhar por alguns minutos um casal, que ela considera perfeito, e criar para eles o romance ideal que ela deseja para si mesma. Até que um dia ela vê algo perturbador e em seguida Megan, que antes Rachel apelidara de Jess em seus devaneios, desaparece.

O livro é um thriller clássico, cheio de reviravoltas e Hawkins se utiliza muito bem do narrador não-confiável, já que a própria personagem admite ter grandes períodos de amnésia por causa do álcool. A narrativa alterna os pontos de vista de Rachel, Anna e Megan, sendo Rachel a principal e mais proeminente e fica claro logo no começo que, apesar de ser um thriller, o livro vai abordar temas pesados como depressão e alcoolismo: Hawkins pinta um retrato tão deplorável de Rachel que o leitor fica até com pena. O interessante do livro é mesmo o suspense, a autora consegue criar uma atmosfera de tensão constante, digna de um filme do Hitchcock. O final me surpreendeu e devo dizer que achei o livro melhor do que eu esperava: diversão ligeira, apesar de não ser nem um pouco leve.

A receita desse livro não podia ser outra: ensopado de carne ao vinho tinto. Um prato suculento, cheio de sabor e caprichado no álcool. Só não vão exagerar, hein?

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Ensopado para a Garota no Trem

Ingredientes:

  • 1 kg de alcatra
  • 1 garrafa de vinho tinto
  • 1 colher de sopa de farinha de trigo
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 2 cebolas picadas
  • 2 cenouras cortadas em rodelas
  • 2 talos de salsão cortados em rodelas
  • folhas de louro
  • 200 g de cogumelos-de-paris
  • 1 colher de sopa de manteiga cortada em cubos
  • pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 1 xícara de água
  • sal a gosto

Modo de Preparo:

  1. Numa tábua, corte a carne em cubos médios.
  2. Numa tigela, junte a carne e o vinho. Leve à geladeira e deixe marinar por 2 horas no mínimo ou até 12 horas.
  3. Transfira a carne para um prato, salpique com a farinha e reserve o vinho.
  4.  Leve uma panela grande com o azeite ao fogo alto. Quando esquentar, coloque a cebola picada e a carne. Mexa bem até que os cubos de carne ficarem dourados por igual. Adicione as rodelas de cenoura e as fatias de salsão e refogue por 3 minutos. Junte o vinho, 1 xícara de água e algumas poucas folhas de louro. Quando ferver, abaixe o fogo, tampe a panela e deixe cozinhar por 2 horas, mexendo de vez em quando.
  5. Quando a carne estiver cozida, lave os cogumelos sob água corrente, seque bem e corte-os em metades. Acrescente ao ensopado e deixe cozinhar até que a carne esteja macia e o molho tenha engrossado. Verifique os temperos e desligue o fogo. Coloque a manteiga gelada cortada em cubinhos, misture bem e sirva a seguir.

A garota no trem”

Autor: Paula Hawkins

Editora: Record

Traduzido para o português por: Simone Campos

378 páginas

 

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Heranças

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Semana passada foi aniversário da minha mãe (parabéns! clap, clap, clap <3) e também da minha avó. Por causa disso eu estou num clima meio nostálgico e vou falar hoje aqui de um livro sobre família: “Os catadores de conchas” da Rosamunde Pilcher. Quem me deu esse livro há séculos atrás foi a minha mãe (na verdade ela não me deu, emprestou… Mas depois acabou me dando mesmo. Mãe é mãe), e ela disse que aquele tijolão enorme era emocionante. Eu adoro tijolões, especialmente os do tipo emocionante.

Em “Os catadores de conchas”, Pilcher conta a história da família Keeling, especialmente a de Penélope Keeling, de quem acompanhamos a vida em dois momentos diferentes; quando ela era ainda jovem, durante a Segunda Guerra Mundial e depois como uma senhora, matriarca da família. Eu adorei a Penélope, e (acho que não por coincidência) ela me lembrou muito a minha mãe e também a minha avó: uma mulher forte e determinada, que nunca se deixa abater pela vida. Penélope tem três filhos, Nancy, Olivia e Noel, e vemos logo que os três são muito diferentes entre si. Penélope também é a filha de um pintor que teve seu trabalho postumamente reconhecido e herdeira de um lindo quadro dele, “Os catadores de conchas”, que para ela tem valor sentimental.

No começo do livro, Penélope está hospitalizada por causa de problemas saúde. Ela logo decide que não vai ficar desperdiçando tempo no hospital, e se dá alta. A experiência de encarar a própria mortalidade porém, faz com que ela queira retornar à Cornualha, onde viveu momentos importantes. Ela pede aos filhos, um de cada vez que viajem com ela. Um a um, os três negam acompanha-la, mesmo a sua filha favorita, Olivia. Mas, de repente eis que surgem candidatos para servirem de Sancho Panza, Antonia, uma moça ligada a Olivia, e Danus, um jovem jardineiro. Esse trio improvável segue rumo a Cornualha e às lembranças de outros tempos.

O livro é mesmo emocionante como disse a minha mãe. Eu me peguei desejando conhecer Penélope pessoalmente, querendo sentar com ela num jantar improvisado maravilhoso (a especialidade dela), olhando a paisagem, aprendendo com quem tem muita história para contar. Por isso, a receita de hoje tem esse mesmo clima improvisado, descomplicado: picadinho. Picadinho é fácil de fazer e você meio que pode inventar o seu com o que estiver na geladeira, que não dá muito errado. Esse aí debaixo é o que eu faço aqui em casa: coisa de família.

Picadinho a la Penélope (serve até 5 pessoas)

Ingredientes:

  • 500 g de contra-filé em bifes
  • 1 abobrinha
  • 1 pimentão amarelo
  • 200 g de champignon
  • 1 cebola roxa
  • 3 dentes de alho
  • 1 pedaço de gengibre (cerca de 2 cm)
  • 2 punhados de cebolinha picada
  • 1/2 xícara de amendoim torrado, sem pele
  • 1/2 xícara de molho shoyu
  • 2 colheres de sopa de maizena
  • 1/2 xícara de água
  • Azeite, sal e pimenta do reino

Preparo:

1. Corte a carne em tiras finas e transfira para uma tigela. Não volte para a geladeira: ela precisa estar em temperatura ambiente para não esfriar o fundo da panela na hora de cozinhar.

2. Lave e seque a abobrinha, o pimentão, e a cebolinha. Corte a abobrinha ao meio, no sentido do comprimento, retire as pontas e fatie em meias-luas (não muito finas). Descarte as sementes e corte o pimentão em quadrados médios. Fatie fininho os talos de cebolinha.

3. Num pilão, soque o amendoim até formar uma farofa grossa. Reserve.

4. Descasque a cebola, o dente de alho e o gengibre. Corte a cebola em cubos médios e o alho, em tiras finas. Se não tiver um ralador para gengibre, pique bem fininho.

5. Leve ao fogo médio uma panela wok (ou uma frigideira grande). Enquanto isso, numa tigelinha, coloque a água e misture o amido de milho até dissolver.

6. Quando a frigideira estiver quente, regue com 1 colher sopa de azeite, junte as tirinhas de carne e deixe dourar por 2 minutos. Só mexa quando descolar da panela. Tempere a carne com sal e pimenta (mas não muito, porque depois colocamos o shoyu e ele já bastante salgado).

7. Afaste as tiras de carne para as laterais da panela e regue o centro com o azeite restante. Refogue os cubos de cebola e pimentão por mais 2 minutos, sem misturar a carne.

8. Junte o alho e o gengibre, e misture, inclusive com a carne. Refogue por mais 1 minuto.

9. Agora é a vez da abobrinha e do champignon: junte, misture bem e deixe cozinhar
por 2 minutos, até dar uma leve bronzeada – a ideia é que fiquem bem douradinhos.

10. Regue com o shoyu e misture bem. Em seguida, junte o vinagre e o amido dissolvido em água. Mexa bem até formar um molho grosso, por 2 minutos. Salpique o picadinho com o amendoim e as fatias de cebolinha. Eu gosto de servir com arroz cateto 😉

Vilões (quase) reformados

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Você já viu um filme em que você torceu descaradamente para o vilão? Já leu um livro em que seu herói era exatamente o anti-herói? Se pegou torcendo para que  o vilão tivesse um final feliz? Então você vai se divertir com “I wear the black hat” de Chuck Klosterman.

Em “I wear the black hat”, Klosterman examina o papel do vilão na nossa sociedade. O autor usa humor para analisar os estereótipos (reais ou fictícios) que constroem a imagem controversa do vilão. Ele fala sobre bandas, comediantes, quadrinhos, filmes e casos reais, colocando-os sobre óticas inesperadas (e pra lá de divertidas). Além disso, o livro levanta questões interessantes: por quê algumas coisas são aceitáveis na ficção e não na vida real? Por quê algumas das qualidades que valorizamos no nosso imaginário são terríveis quando transportadas para a realidade? As respostas de Klosterman são cheias de insight – “As vezes, exorcizamos nossas vontades obscuras através da ficção, pois na vida real sabemos que essas vontades seriam um comportamento distorcido. E quando alguém, de fato, realiza essas vontades então os vilificamos.”

A receita dessa semana é um grande vilão das dietas no mundo todo: hambúrguer com batata e refrigerante! O famoso trio já acabou com a resistência de muita gente. Por isso decidi fazer uma receitinha vilanesca, mas com características redentoras! Os ingredientes são os mesmos, mas tudo um pouco menos junk, porque assim dá para matar a vontade e não se sentir tão culpado depois. rsrs

Hambúrguer com batata doce e refrigerante de mentirinha (serve 2 pessoas)

Ingredientes:

Para o hamburguer e as batatas:

  • 400 gramas de carne moída (fraldinha ou patinho)
  • 1 cebola pequena (pérola ou roxa)
  • 2 dentes de alho
  • 4 ramos de salsinha
  • 2 batatas doces grandes
  • sal e pimenta do reino
  • mostarda dijon

Para o refrigerante de mentirinha:

  • 1 limão
  • Água com gás
  • Adoçante
  • Gelo

Preparo:

  1. Coloque as batatas doces para ferver em uma panela com água por vinte minutos.
  2. Pré-aqueça o forno a 180 graus.
  3. Divida a carne em quatro e faça bolinhas com as mãos. Tempere cada bolinha com sal e pimenta do reino.
  4. Corte a cebola, o alho e a salsinha bem fininho. Misture tudo e coloque em um prato raso
  5. Role cada bolinha sobre a mistura de cebola e ervas, amasse bem e depois role novamente.
  6. Refaça as bolinhas e reserve.
  7. Retire as batatas da água e deixe esfriar um pouco (se quiser pode jogar água fria nelas). Corte-as em fatias redondas finas. Coloque em uma travessa refratária, uma sobrepodondo-se um pouco a anterior, fazendo um círculo. Faça um círculo menor dentro do outro (fica parecendo uma flor). Faça uma flor de batata por pessoa. Tempere com azeite, sal e pimenta do reino e coloque no forno para assar durante 1 hora.
  8. Quando faltarem dez minutos para as batatas ficarem prontas, amasse as bolinhas com a palma da mão até virarem discos e então coloque os hambúrgueres para fritar em uma frigideira com azeite.
  9. Aperte cada um contra o fundo da frigideira com uma espátula. Devem ficar de 2 a 3 minutos de cada lado.
  10. Tire do forno e sirva com as batatas quentinhas.

Preparo do refrigerante de mentirinha:

  1. Lave bem o limão. Corte-o em dois.
  2. Corte em quatro meias luas uma metade do limão e coloque no copo.
  3. Esprema a outra metade de limão no mesmo copo.
  4. Coloque algumas pedras de gelo e adicione a água com gás.
  5. Coloque adoçante a gosto.

Parece H2OH! Ou pelo menos mata bem a vontade 😉 Um vilão reformado!

Ah, acho legal servir com uma salada (pode ser bem básica: alface, tomate e pepino) e uma mostarda dijon para completar.

Costelinha romântica

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Têm uns livros que fazem a gente ficar com o coração apertado, chorar com o protagonista, torcer por ele, mesmo sabendo que nada aquilo aconteceu. Livro bom é assim, quando você percebe já está dentro desse universo paralelo literário, as duas da manhã de uma quarta-feira. Foi assim comigo quando eu li “A garota que você deixou para trás” da Jojo Moyes.

Primeiro, devo confessar que é um livro bem feminino. Diferentemente do Blink, da semana passada, não consigo imaginar nenhum dos meus amigos homens com esse livro na mão. Mas isso não significa que é um romance açúcarado, é um romance sim, mas bem leve na sacarose.

A história do livro se divide em duas partes. A primeira parte tem como protagonista Sophie, que tem um hotel com sua família no interior da França durante a ocupação alemã e vive aguardando notícias do seu marido, que antes de ir para o front era pintor. A segunda parte, que se passa nos dias atuais, é a história de Liv, uma jovem viúva londrina que ainda não superou a perda do marido. As duas personagens tem uma pintura como ponto de encontro. Não quero falar mais para não estragar. (Se alguém quiser fofocar sobre o livro pode deixar um comentário que eu vou adorar!)

No começo do livro, a família de Sophie está escondendo um porquinho dos alemães, o que era terminantemente proibido. Eles pretendem deixar ele crescer, e fazer um pequeno banquete para eles e seus vizinhos. Mas eles são denunciados! Os alemães aparecem lá e…. SUSPENSE. Rá. Agora você vai ter que ler. (risadinhas malignas aqui)

Mas o tal do porquinho me deixou pensando em costelinhas e eu estava no mood romântico do livro, sabe? Então, como meu respectivo AMA costelinhas (tanto que quando a gente vai na casa dos meus pais, a Cidoca pergunta se ele vai, porque se for, ela faz costelinhas pra ele). É uma preferência escancarada mesmo (ele com as costelinhas, a Cidoca com o maridão), ninguém disfarça mais. Resolvi aproveitar a vibe romântica, pedi as instruções para a chefia e ela me deu o bizú das costelinhas da felicidade. Viu, para não dizer que eu não agrado gregos e troianos, se o livro é para as mulheres, a comida é pros homens! Só um aviso, o preparo é moleza, mas fica um tempão no forno.

Costelinha romântica com batata rústica (serve duas pessoas -romance, gente!)

Ingredientes:

  • Costelinha de porco
  • 1 pote de geléia de damasco ou laranja
  • 2 cabeças de alho
  • 3 batatas inglesas grandes ou 6 pequenas
  • Alecrim seco
  • Sal grosso
  • Azeite e pimenta do reino a gosto
  • Papel alumínio

Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 220 graus.
  2. Encha uma panela grande de água e coloque as batatas. Deixe as batatas na água fervente por 20 minutos.
  3. Enquanto as batatas fervem, coloque a costelinha em uma travessa refratária e tempere com sal, azeite e pimenta da reino. Depois espalhe a geléia bem por cima de toda a costelinha.
  4. Coloque a costelinha no forno e deixe assar em temperatura alta mesmo por 20 minutos.
  5. Escorra as batatas. Corte cada uma ao meio, e depois corte ao meio longitunalmente de novo. Se for da grande, corte cada fatia ao meio mais uma vez.
  6. Quando acabarem os vinte minutos da costelinha, retire ela do forno e tampe-a com papel alumínio. Na mesma travessa, ou em outra, coloque as batatas e regue com azeite. Jogue um pouco de sal grosso (não muito, senão fica salgado demais), pimenta do reino e o alecrim seco por cima. Coloque junto as duas cabeças de alho, inteiras mesmo.
  7. Diminua a temperatura do forno para 160 graus e asse por mais 1 hora.

Faz um jantarzinho íntimo do bom!