Tudo junto, misturado

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Alguns livros são mesmo produto do nosso tempo, pegam um pout-pourri de referências atuais: crianças e jovens com poderes fora do normal (Harry Potter), um romance complicado para o protagonista adolescente (Jogos Vorazes), um mundo que corre perigo por causa de personagens malignos/mal-intencionados (Divergente). “O orfanato da Srta Peregrine para Crianças Peculiares”, de Ransom Riggs se encaixa nesses parâmetros com perfeição e, apesar de recorrer a clichês do gênero, é um livro divertido (e vai até ter filme dirigido pelo Tim Burton!).

O que eu achei interessante no livro foi o fato de abordar a loucura: o protagonista sofre ao achar que está enlouquecendo e que sua imaginação está criando coisas horríveis por causa de um trauma. Gostei de o autor trazer essa preocupação para a narrativa: a realidade é diferente para cada um, e algumas coisas podem ser interpretadas de forma completamente díspar entre pessoas próximas ou até da mesma família.

O protagonista, Jacob, é fascinado pelo avô Abraham, conhecido como Abe, que desde pequeno o encanta com suas histórias sobre o orfanato fantástico onde viveu depois da guerra, as quais conta como se tivessem realmente acontecido. Ao ficar mais velho, Jacob não acredita mais nas “fantasias” do avô, mas ainda assim sente com ele uma grande afinidade. Não é então que, de repente, por uma série de circunstâncias, Jacob acaba indo parar justamente no tal orfanato, que não é que existe mesmo?! Lá só habitam pessoas peculiares, a começar pela própria Srta Peregrine, a diretora do lugar. Os personagens que vivem no orfanato são bem loucos (eu não li ainda a série Percy Jackson, mas vi algumas cenas na TV e senti que havia nesses personagens alguma semelhança), um menino invisível, uma menina que domina o fogo, outra que flutua e por aí vai. Não curti muito os vilões do livro; achei meio sem pé nem cabeça o porquê deles perseguirem os peculiares, mas vá lá. Enfim, o livro é divertido e bem rapidinho de ler, bom para se divertir sem compromisso.

Ao pensar em um prato que pudesse acompanhar o livro, lembrei de uma tortinha ratatouille que é uma delícia: combina vários legumes diferentes em um lugar só, igual a Srta Peregrine faz com as crianças em seu orfanato. Aqui é uma festa de sabores em uma tortinha que vai bem como entrada ou acompanhamento para o prato principal.

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Torta Ratatouille para a Srta Peregrine (serve de 4 a 6 pessoas)

Ingredientes:

Para a massa:

  • 100 g de manteiga gelada
  • 1 1/4 de xícara de chá de farinha de trigo
  • 1 ovo
  • 1 colher de chá de sal

Para o recheio:

  • 1 berinjela pequena
  • 1 abobrinha média
  • 3/4 de xícara de chá de tomate cereja
  • 1 talo de alho-poró sem as folhas verdes
  • 1 pimentão amarelo
  • 1 cebola média
  • 4 dentes de alho
  • sal e pimenta-do-reino moída na hora a gosto
  • 8 colheres de sopa de azeite

Modo de preparo:

  1. Numa tigela grande junte a farinha com o sal e misture. Corte a manteiga em cubos e transfira para a tigela. Com a ponta dos dedos, misture até formar uma farofa, sem dissolver completamente a manteiga – isso vai garantir uma massa mais crocante.
  2. Junte o ovo e trabalhe a massa apenas até formar uma bola. Envolva com filme e leve à geladeira por no mínimo 1 hora (se preferir, faça a massa no dia anterior).
  3. Preaqueça o forno a 220 ºC (temperatura alta).
  4. Cerca de 15 minutos antes de terminar o tempo para pré-assar os legumes, retire a massa da geladeira (se você está fazendo a torta em etapas, cada passo num dia, preaqueça o forno a 180 ºC). Separe uma fôrma redonda, de fundo removível, com cerca de 24 cm de diâmetro.
  5. Numa bancada, polvilhe um pouco de farinha e, com um rolo de macarrão, abra a massa num formato arredondado até ficar com cerca de 0,5 cm de espessura.
  6. Separe o fundo da fôrma. Para transferir a massa, enrole no rolo de macarrão e desenrole sobre o fundo, deixando as bordas para fora.
  7. Numa tábua, corte a berinjela em rodelas de cerca de 1 cm e descarte as pontas. Se a berinjela for grande, corte as fatias em meias-luas. Transfira para uma tigela, cubra com água e misture 1 colher (chá) de sal. Reserve.
  8. Prepare os outros legumes: fatie as abobrinhas em rodelas de 1 cm e descarte as pontas; corte os tomatinhos ao meio; fatie fino o alho-poró; corte o pimentão ao meio, descarte as semente e corte as metades em quadrados; descasque a cebola e corte em quartos; descasque os dentes de alho.
  9. Retire a berinjela da água e disponha numa assadeira retangular grande. Regue com 3 colheres (sopa) de azeite e leve ao forno preaquecido por 15 minutos.
  10. Retire a assadeira do forno e junte os outros legumes. Tempere com sal e pimenta-do-reino, regue com o azeite restante e misture delicadamente. Volte a assadeira ao forno por 30 minutos. Retire a assadeira e baixe a temperatura do forno para 180 ºC.
  11. Retire a assadeira do forno. Debulhe os ramos de tomilho e alecrim e junte aos legumes, misturando delicadamente. Coloque os legumes sobre a massa e dobre as bordas sobre os legumes.
  12. Numa tigelinha, misture a gema com a água. Pincele a massa e leve a torta ao forno por 45 minutos ou até dourar. Sirva quente ou em temperatura ambiente.

PS: quem acompanha o Instagram aqui do Cozinha Literária já deve ter percebido, eu estou de férias na zoropa e ficando obcecada com o jamon ibérico espanhol, o queijo de cabra, os ovos moles portugueses, e, claro, os vinhos. Preparem-se para posts turbinados quando eu voltar! 😊

 

Na veia

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Há pouco tempo vi na televisão um pedaço de uma entrevista da Tati Bernardi, roteirista da Globo e colunista da Folha, na qual ela falava sobre o livro que estava lançando “Depois a louca sou eu”. Não consegui, infelizmente, ver a entrevista toda (a gente tem que trabalhar e tal) mas fiquei muito a fim de ler o livro, pois a autora parece ser engraçadíssima. Não deu outra: comprei, li, ri.

O livro é composto de crônicas sobre diversos assuntos: crises de pânico, ansiedade, amor, medicação, meditação, trabalho. Tudo isso recheado de humor. Algumas crônicas são mais redondinhas do que outras, eu gostei particularmente de “Eu não desmaio, Dr Guido”, “Os números da felicidade” e da que empresta nome ao livro “Depois a louca sou eu”. Na segunda, eu ri alto no avião com a frase inicial “A felicidade só existe naquele minuto trinta e sete em que o Dorflex faz efeito e a nuca deixa de ser o pufe para os pés de um demônio gordo.”, o quê fez o passageiro do meu lado achar que a louca, de fato, era eu. Mas tranquilo, valeu a pena. Obrigada, Tati.

Em vários momentos a autora aborda o uso de medicamentos, o mais frequente é o Rivotril. Então, em uma brincadeira, pensei no que seria o equivalente culinário desses remédios tarja preta punk hard core no último e me lembrei desses cookies de brownie que são açúcar na veia. Eu quase não faço, pois são uma gordice ensandecida, mas são uma de-lí-cia. Melhor que Rivotril.

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Rivotril Brownie Cookies

Ingredientes:

  • ½ xícara de manteiga sem sal (115g)
  • 115g de chocolate sem açúcar picado
  • 1 xícara (190g) de açúcar mascavo
  • 2 colheres de sopa (25g) de açúcar cristal
  • 2 ovos grandes
  • 1 colher de chá de extrato de baunilha
  • ½ colher de chá de maizena
  • ½ colher de chá de sal
  • 45g de de chocolate em pó
  • 1 xícara de farinha
  • 2/3 de xícara (115g) de chocolate amargo picado

Modo de Preparo:

  1. Derreta a manteiga e o chocolate juntos, no microondas mesmo, em intervalos de 30 segundos, mexendo a mistura entre cada intervalo até que o chocolate esteja quase todo derretido. Mexa com a colher então fora do fogo até que fique totalmente derretido.
  2. Adicione os açúcares na mistura de chocolate e mexa, então adicione os ovos (um de cada vez) e depois a baunilha. A seguir, misture a maizena, o sal e o chocolate em pó. Por último adicione a farinha e mexa só até estar homogêneo. Adicione os pedaços de chocolate e mexa delicadamente.
  3. Coloque a massa na geladeira por 30 minutos (pode deixar mais se quiser, mas fica mais dificil de distribuir a massa –se quiser esquente rapidamente no microondas 15 segundos para ajudar).
  4. Pré-aqueça o forno a 180 graus.
  5. Com um pegador de sorvete ou duas colheres, distribua em uma assadeira untada (ou coberta com papel próprio para assar) com espaço entre cada um para que eles possam crescer um pouco. Asse entre 10 e 12 minutos (podem parecer crus ainda, mas o objetivo é um centro cremoso como um brownie, então NÃO deixe mais tempo). Deixe esfriar um pouco antes de comer (se você conseguir!).

Entrelinha

Eu te amo nos cantos

Aqueles que são difíceis de limpar

Aonde você precisa trocar o bico do aspirador, senão não sai

Fica ali escondido, esperando

 

Eu te amo nas bordas

Aquelas que mantém todas as coisas dentro

Aonde se separam o lá e o aqui, líquidos e sólidos

Fica no limite, protegendo

 

Eu te amo nas entrelinhas

Aquelas que têm os os significados

Aonde o branco não é vazio, é promessa

Fica sempre em silêncio, gritando

Um doce de livro

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“Para todos os garotos que já amei”, da Jenny Han, é um doce de livro. É tão romântico, tão cheio daquela ingenuidade adolescente que as vezes dá até uma certa nostalgia (até você lembrar que ser adolescente era um sofrimento só, com provas de física, espinhas gigantes e hormônios que deixavam você meio enlouquecida).

Lara Jean, a protagonista de Han, é uma menina doce e tímida, vive em um mundo insular com suas irmãs, Margot e Kitty, e seu pai; uma vida tranquila, sem grandes surpresas, e repleta de romances de fantasia. Até que um dia ela é forçada para fora de sua bolha segura, quando todos os meninos de quem ela gostara, e um do qual ainda gosta, recebem cartas que declaram seu amor por eles. Cartas secretas que misteriosamente chegam aos destinatários que nunca deveriam vê-las. É uma premissa meio mamão com açúcar, meio sessão da tarde, mas Lara Jean é uma personagem tão fofa, que você vai deixar para lá essas picuinhas e acompanhar enquanto ela saí da sua concha para descobrir (e o amor) o mundo lá fora, com a ajuda de um dos seus amores, o garoto mais popular da escola, Peter Kavinsky.

O que eu adorei nesse livro foi a habilidade de Han em criar um mundo para Lara Jean. Todo tempo que eu estava lendo, imaginava cada pedaço da sua vida, das suas meias aos pijamas, passando pelos cadernos e tranças elaboradas. Lara Jean é um doce, Peter Kavinsky é lindo e Kitty vai fazer você rir. E vai deixar você morrendo de vontade de comer um doce delicioso (ou pelo menos foi o que aconteceu comigo). Por isso pensei em uma receita bem doce, que vai deixar você suspirando, igual o Peter K. faz com as mocinhas. Brownies é claro!

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Brownies para Lara Jean Song

Ingredientes:

  • 340g de açúcar mascavo
  • 3 ovos
  • 300g de chocolate meio amargo picado
  • 1 barra de manteiga sem sal
  • 145g de farinha de trigo
  • 30g de cacau em pó (esse ingrediente é importante para fazer essa casquinha brilhante deliciosa 🙂 )
  • 1/2 xícara de nozes picadas rusticamente
  • 1 colher de chá de essência de baunilha
  • 1/2 colher de chá de fermento
  • 1 colher de chá de flor de sal ou 1/2 de sal

Modo de Preparo:

  1. Pique o chocolate bem grosseiramente e derreta no microondas com a manteiga por 1 minuto. Depois, mexa até se transformar em um líquido homogêneo e brilhante.
  2. Bata os ovos com o açúcar e adicione à mistura de chocolate.
  3. Acrescente e misture rapidamente a farinha, o cacau e o fermento.
  4. Por último coloque a baunilha e o sal e mexa delicadamente.
  5. Ponha a massa em uma fôrma untada e asse em forno pré-aquecido a 220 graus por 30 a 40 minutos.