Salada Encantada

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Quem não cresceu ouvindo contos de fada? Cinderella, Chapéuzinho Vermelho, Branca de Neve, Rapunzel, toda menina já fingiu ser uma delas (ou todas) na infância e é por isso que eu fiquei empolgada para ler “Bitter Greens” da Kate Forsyth, que entrelaça a história verídica de Charlotte-Rose de la Force, uma aristocrata francesa, com a fábula de Rapunzel, no livro chamada de Marguerita, e da fictícia bruxa Selena.

No livro, as três narradoras se revezam: Charlotte-Rose é banida por Luís XIV para um convento e dentro de seu período lá, faz amizade com uma das freiras, Irmã Serafina. Charlotte-Rose é aspirante a escritora e desde pequena é considerada uma independente e selvagem demais para os padrões da época. Ao chegar no convento ela está inconsolável por causa de um amor perdido, mas com o passar do tempo e com a assistência de Irmã Serafina, sente-se melhor. Marguerita, no seu aniversário de sete anos, é arrancada de seu lar pela bruxa Selena,  chamada de La Bella Strega, em troca de um punhado de hortaliças, e levada para uma vida de isolamento em uma torre. Em seguida, voltamos no tempo para acompanhar a vida de Selena, como esta se tornou bruxa e as motivações das suas ações.

O que eu adorei nesse livro foi a mistura de ficção com realidade: personagens reais como Charlotte-Rose (tão interessante que quero ler mais sobre ela), Luís XIV e o pintor Tiziano, entre outros, trazem para a narrativa uma riqueza enorme, o que deve ser o resultado de uma pesquisa histórica bem extensa. Além disso, Forsyth consegue nos fazer empatizar com suas personagens, mesmo quando elas são vilãs e agem de maneira cruel ou egoísta. O livro é uma delícia de ler, passa rápido e tem cenas ótimas (especialmente no final, uma cena de Charlotte-Rose me fez gargalhar).

Como não poderia deixar de ser com um livro com esse nome, a receita de hoje é uma salada! Mas não é qualquer salada, não, é uma salada delícia especial que vai bem em qualquer dieta e ainda deixa você feliz: salada morna de rúcula, abobrinha e amêndoas. Uns verdinhos amargos de vez em quando caem bem 🙂

Salada de Abobrinha Encantada (serve 2 pessoas)

Ingredientes:

  • 3-4 abobrinhas médias ou grandes
  • 1/2 xícara de amêndoas torradas
  • 1 limão
  • um punhado generoso de rúcula lavada
  • sal, azeite e pimenta do reino

para o molho:

  • 1 pote de iogurte natural (eu uso o semi0desnatado)
  • 2 colheres de sopa mostarda dijon
  • mel a gosto

Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180 graus.
  2. Lave bem a abobrinha e então seque. Em seguida, em uma travessa antiaderente, corte as três abobrinhas, com casca mesmo, em tiras verticais com um mandolim. Pare de cortar quando chegar nas sementes. Arrume as tiras na assadeira e então regue com azeite e o suco de limão, tempere com sal e pimenta e coloque para assar entre 15 e 20 minutos.
  3. Em um pote, despeje o iogurte, a mostarda e o mel. Misture bem até fica homogêneo. Reserve na geladeira até a hora de servir.
  4. Corte as amêndoas rusticamente.
  5. Coloque a rúcula lavada e seca na saladeira. Retire do forno a abobrinha e jogue sobre o leito de rúcula, por cima jogue as amêndoas cortadas. Sirva com o molho.

 

Escondidinho para Lisbeth

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Vocês conhecem a série Millenium, do Stieg Larsson, certo? Os livros fizeram um grande sucesso quando foram lançados em 2004, pouco após a morte do autor sueco. Tanto sucesso que viraram filmes: o primeiro livro teve uma versão sueca e também uma holywoodiana com Daniel Craig e Rooney Mara nos papéis principais. Os outros livros viraram filmes suecos também, mas Holywood ainda não continuou a sequência. Enfim, tudo isso para dizer que a série Millenium que começa com “Os homens que não amavam as mulheres” é totalmente viciante. E agora tem um novo volume, chamado “A garota na teia de aranha” do David Lagercrantz.

O quê faz os livros Millenium serem tão tão bacanas? A resposta é óbvia: Lisbeth Salander. Lisbeth é uma hacker brilhante com dificuldades de relacionamento (na verdade, ela sofre de algum tipo de síndrome), aptidão para a violência e um grande senso de justiça. Ela não é nem um pouco parecida com as heroínas tradicionais, é magra e sem curvas, tem os cabelos pretos cortados curtos, uma grande tatuagem de dragão nas costas, um milhão de piercings e é bissexual. E você vai torcer por ela a cada momento. Claro que uma heroína merece um herói a altura, então temos Mikael Blomkvist, um jornalista que é um dos sócios-fundadores da revista Millenium, conhecido por sua capacidade investigativa.

Não vou falar muito dos três primeiros livros aqui, só vou dizer para vocês: se ainda não leram, leiam. E agora vamos falar do “A garota na teia de aranha”. Para mim foi irresistível a chance de ler mais Lisbeth. E também fiquei curiosa para ver como o novo autor se sairia. Stieg Larsson morreu quando ele estava escrevendo o quarto livro, mas David Lagercrantz não teve acesso ao manuscrito por questões do espólio, então fez tudo sozinho mesmo. E se saiu muito bem, na minha opinião. Eu gostei bem mais dos três primeiros, mas também fiquei lendo loucamente o novo. Lagercrantz manteve as características dos personagens, e utilizou bem todo o pano de fundo construído por Larsson. Também curti bastante os personagens novos que estão envolvidos na trama, como o Dr. Frans Balder e seu filho August, sendo que este último é autista (o que tem grande relevância na história). Enfim, se você gosta de thrillers, esse livro (e a série toda, claro) é um prato cheio!

O que eu acho muito bacana em Millenium é justamente a habilidade dos autores em surpreender, então fiquei pensando que a receita que acompanhasse o livro tinha que ter essa mesma característica. Nesse meio tempo, fui fazer compras e trouxe para casa uma bandeja de shitake e, enquanto pensava em como preparar meus cogumelos, tive um estalo: um escondidinho de shitake! Um prato que ainda não comi em lugar nenhum, será que ia ficar bom? E não é que ficou ótimo! Surpreendeu, a la Lisbeth.

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Escondidinho de Shitake para Lisbeth (serve de 4 a 5 pessoas)

  • 3 mandiocas descascadas
  • 300g de shitake
  • 250g de carne moída (opcional)
  • um punhado de cebolinha fatiada
  • 1/3 de xícara (chá) de queijo parmesão ralado
  • 1/4 de xícara de farinha de rosca
  • 1/2 xícara de leite
  • 1 colher de sopa de manteiga
  • shoyu
  • azeite para untar
  1. Lave os cogumelos, escorra-os e refogue com um um fio de azeite e bastante cebolinha. Se for fazer com carne, refogue a carne também. Adicione o shoyu e, se quiser, tempere com sal e pimenta do reino.
  2. Acomode a mistura de shitake ainda quente no fundo de uma travessa média.
  3. Cozinhe 250g de mandioca em água até ficar bem macia. Retire do fogo e deixe amornar.
  4. Retire os fiapos e amasse as mandiocas com um garfo. Adicione 1/2 xícara de leite desnatado, 1 colher de sopa de manteiga, noz moscada e sal a gosto.
  5. Despeje o purê sobre a mistura de cogumelos. Alise a superfície com uma espátula.
  6. Salpique a farinha de rosca e o queijo parmesão por cima até ficar uniforme.
  7. Leve ao forno pré-aquecido a 220 graus por aproximadamente 30 minutos. Sirva ainda quente!

Segredos, confissões e panquecas

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Vou confessar uma coisa: eu não adorei Mentirosos, da E. Lockhart. De vez em quando eu gosto de ler um livro YA, eles são rápidos e divertidos no geral, leituras fáceis de digerir. E Mentirosos parecia interessante, mas logo no começo eu achei adivinhei o grande twist do final e aí pronto, o livro perdeu um pouco da graça. Enfim, não é o meu livro predileto mas tem algumas coisas legais: a autora consegue criar muito bem o retrato do lugar e da família de Cady, a personagem principal.

Logo de cara, Cadence Sinclair ou Cady, a narradora nos conta que ela teve um acidente que a deixou com terríveis dores de cabeça. Ela explica também que nenhum Sinclair é fraco, ou sofre de vícios ou fracassa. Em seguida, ela e a mãe vão para a ilha particular da família, onde seus avós e cada uma das suas tias, e também sua mãe, tem uma casa. É nessa ilha teoricamente paradisíaca que Cady encontra seus primos, e  se apaixona pela primeira vez. O grupo dos primos mais Gat (o filho do namorado da tia) eram chamado de “Mentirosos” pela família.  É também na ilha que ela sofre o acidente que a deixou doente.

No livro, existem várias descrições de refeições luxuosas a beira-mar, e essa parte sim me deixou com água na boca. Uma parte fala de café da manhã e isso me deixou sonhando com panquecas fofinhas cobertas de mel. E aposto que você vai acabar mentindo para você mesmo um pouquinho para poder comer essas panquecas deliciosas sem culpa de vez quando… Então segue aí.

Panquecas para Cady Sinclair (faz de 4  panquecas médias)

Ingredientes:

  • 125 g de farinha de trigo
  • 5g de fermento químico
  • 1 pitada de sal
  • 30g de açúcar mascavo
  • 1 ovo
  • 150ml de leite
  • manteiga para derreter
  • uma pitada de canela (opcional)

Preparo:

  1. Misture a farinha com o fermento, o sal, o açúcar e a canela numa tigela funda.
  2. Em outro recipiente, bata o ovo e misturar com o leite.
  3. Misture os ingredientes secos com os líquidos, batendo até que a massa fique homogénea.
  4. Aqueça uma frigideira anti-aderente em fogo médio. Coloque um pouco de manteiga e deixe derreter completamente.
  5. Com uma concha, derrame uniformemente a maça de modo a cobrir o fundo da frigideira.
  6. Deixar cozinhar até que a massa comece a borbulhar, então vire a panqueca do outro lado e deixe dourar durante cerca de 30 segundos.
  7. Sirva quentinhas polvilhadas com açúcar em pó e regadas mel e rodelas de banana ou morangos, e para finalizar umas nozes.

 

 

 

 

Jardim interno

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Esse ano eu fiz uma lista com os livros indispensáveis de 2016, entre eles está “O amante japonês” da Isabel Allende. Isso porque faziam anos que eu não lia nada dela, e fiquei curiosa quando vi que o livro se passava em uma casa de repouso. Quase nenhum livro conta o final da história, o que aconteceu com os heróis depois daquele beijo, ou do casamento, ou depois que nasce o filho. Eu tinha quase certeza que isso não aconteceria nesse livro, e estava (quase completamente) certa!

“O amante japonês” conta a história de Alma e Irina. Alma Belasco é uma idosa ativa que vive na casa de repouso Larkhouse, onde Irina, uma jovem imigrante da Moldávia vai trabalhar após passar por momentos difíceis. Alma se aproxima de Irina e as duas se tornam amigas e confidentes, e é para a jovem e para seu neto Seth (que arrasta a asa para Irina) que Alma conta sua improvável história de amor com um jardineiro japonês, Ichimei Fukuda. O livro toca em vários temas espinhosos: abuso sexual, imigração, preconceito racial, social e etário, o que poderia tornar-lo um livro difícil, mas Allende mantém o foco no romance e consegue navegar esses assuntos de forma habilidosa. A personagem de Alma é cheia de nuances, uma personagem que projeta uma imagem para os outros mas internamente é bem diferente. Por fora, Alma é fria e de poucos amigos, mas por dentro, com a ajuda de Ichimei, florescem jardins.

Essa foi a reflexão que ficou comigo quando terminei o livro, o quanto as vezes somos diferentes do que parecemos para os outros, não melhores ou piores, mas diferentes. Queria uma receita que representasse essa dualidade, então tive a idéia de fazer um folhado diferente, recheado de sabores surpreendentes: figos, presunto de parma, ricota, mel! Aproveitem 🙂

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Folhado a la Belasco (faz quatro folhados)

Ingredientes:

  • Massa Folhada (usei a da Massa Leve)
  • 4 figos
  • ricota fresca (eu adoro a Vitalate!)
  • 30g de presunto de parma
  • sal, azeite e pimenta do reino
  • manteiga
  • mel a gosto
  • Gema de ovo para pincelar

Preparo:

  1. Tire a massa de dentro da embalagem com cuidado, ela é delicada.
  2. Em uma vasilha, tempere a ricota com azeite, sal e pimenta.
  3. Corte os figos ao meio e depois em quatro. Esquente uma frigideira e derreta um pouco de manteiga, em seguida coloque os figos na frigideira e deixe-os amolecer um pouco. Antes de retirar adicione o mel.
  4. Corte o presunto em pedaços menores que caibam no folhado.
  5. Coloque o recheio bem no meio da massa, mas não exagere na quantidade para não transbordar quando assar.  Posicione-o pensando que vai ter que dobrar a massa por cima dele e colar as beiradas.
  6. Dobre o outro lado da massa sobre o lado que você colocou o recheio e ligue as pontas, pressionando com um garfo por toda a extensão da borda para que os dois lados fiquem bem coladinhos.
  7. Abra um ovo e separe a gema. Pincele um pouco da gema por cima de cada folhado, sem exagero.
  8. Coloque já na forma que vai usar para assar e leve para a geladeira por 30 minutos. Na metade desse tempo, acenda o forno para preaquecer a 200°C.
  9. Depois dos 15 minutos, pegue a forma e coloque no forno para assar até dourar, entre 5 e 10 minutos.