Delicadeza oriental

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Nesse Natal ganhei de presente “Homens sem mulheres”, um livro de contos de um autor que é um xodó meu, Haruki Murakami  (já falei no blog de outros livros dele, “1Q84” e “O incolor Tsukuru Tazaki”). Todos os contos do livro são estudos de relacionamentos contados do ponto de vista masculino. Murakami é como sempre muito sutil e delicado, ele usa muita simbologia na sua narrativa e acaba criando pequenos mundos fantásticos em cada história. Essa habilidade do autor é sempre minha parte preferida dos seus livros, os personagens dele são quase um portal para um Japão fantástico onde gatos e jazz são parte integrante do dia-a-dia. No caso de “Homens sem mulheres”, eu adorei especialmente dois dos contos, “Habara” e  o que empresta nome ao livro “Homens sem mulheres”. Em “Habara”, a personagem Sherazade é tão interessante que eu fiquei meio triste quando o conto acabou. Em “Homens sem mulheres” me diverti com a honestidade e imagens lúdicas criadas pelo autor: fiquei pensando em unicórnios e marinheiros.

O estilo de Murakami é delicioso e sempre me inspira, por isso os os livros dele sempre acabam por aqui: a forma poética dele escrever sempre me faz pensar em comida! rsrs. Enquanto estava lendo “Homens sem Mulheres” eu pensei que desta vez eu queria um prato sofisticado e suave, mas complexo. Um prato que me desse a mesma sensação de ler Murakami e então me lembrei do risoto de abóbora assada. Não deu outra: casamento perfeito entre literatura e culinária. Para comer saboreando, sem pressa e de preferência com boa música e boa companhia.

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Um risoto delicado (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 2 xícaras de chá de arroz arbóreo
  • 750 g de abóbora japonesa em cubos
  • 15 folhas de sálvia
  • 1,5 l de caldo de legumes (se for usar cubos, dissolva apenas 2)
  • 1 cebola grande picada
  • 2 xícaras de chá de vinho branco seco
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 4 colheres de sopa de queijo parmesão ralado e mais um pouco para servir
  • sal e pimenta-do-reino a gosto

Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 180ºC. Unte uma assadeira, de preferência antiaderente, com 1 colher de sopa de azeite.
  2. Lave a abóbora sob água corrente. Sobre uma tábua, descasque-a com cuidado e corte ao meio. Retire as sementes e as fibras e corte-a em cubos de 2,5 cm.
  3. Disponha os cubos de abóbora numa assadeira e regue com um pouco mais de azeite. Tempere com sal e pimenta-do-reino e polvilhe com as folhas de sálvia. Leve ao forno e deixe assar entre 40 e 50 minutos.
  4. Numa panela, coloque o caldo de legumes e leve ao fogo alto. Quando ferver, abaixe o fogo.
  5. Em outra panela, coloque 1 colher (sopa) de azeite e leve ao fogo médio. Quando aquecer, junte a cebola picada e refogue, mexendo bem, até ficar transparente. Acrescente o arroz e refogue por 2 minutos, mexendo sempre. Adicione o vinho e misture até evaporar. Acrescente 1 concha de caldo de legumes e mexa bem.
  6. Quando o caldo secar, adicione mais 1 concha e repita o procedimento até o risoto ficar no ponto ou até acabar o caldo.
  7. Verifique o ponto: o risoto deve ser cremoso, mas os grãos de arroz devem estar al dente, ou seja, um pouco durinhos. Porém, se ainda estiver muito cru, continue cozinhando por mais 1 minuto. Se for necessário, junte um pouco mais de caldo e mexa bem. Na última adição de caldo, não deixe secar completamente ou o resultado será um risoto ressecado.
  8. Junte a abóbora assada e os sucos que ficaram na assadeira e mexa bem. Por último, acrescente o queijo parmesão e misture bem. Sirva a seguir.

PS: Além disso, quando estava lendo me lembrei bastante de um documentário japonês muito interessante, “Jiro dreams of Sushi” que assisti outro dia no Netflix. Fica a dica!

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Colecionando


No começo de Janeiro realizei um sonho: recebi de presente por causa do blog um livro! Fiquei emocionada quando a Erica Oliveira entrou em contato comigo por e-mail e falou que gostava do Cozinha Literária e queria de me enviar o seu livro. Enfim, algumas semanas atras recebi “Betina, a colecionadora”, da Erica Oliveira com ilustrações (lindas!) de Anttonio Pereira.

Esse fofo livro infantil fala da história de Betina, uma menina que vive cercada de colecionadores de todo tipo de coisas: árvores, filhos, chupetas, biscoitos e até sardas! Ela começa então a procurar pela coleção perfeita para chamar de sua. Quando ela finalmente encontra, não quero estragar a surpresa, então só vou dizer que é uma coleção bem diferente!

No final do livro tem uma festa de aniversário e uma disputa pelo primeiro pedaço, como sempre! Eu me lembro de como era a sensação de esperar essa honra! rsrs. Por isso mesmo acho que para honrar a Betina, a receita desse livro é uma receitinha especial de família: bolo de laranja da minha avó. Vale disputar cada pedaço (e colecionar memórias de cada um que você comeu).

Bolo de Laranja para Colecionadores Inveterados (rende 10 fatias generosas)

Ingredientes:

  • 200g de manteiga
  • 2 xícaras de açúcar
  • 4 ovos
  • 3 xícaras de farinha de trigo
  • 1 colher de sopa de fermento em pó
  • 2 copos de suco de laranja

Modo de Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180 graus e unte uma forma de bolo com manteiga e farinha de trigo.
  2. Bata a manteiga derretida com o açúcar e as gemas. Adicione a farinha de trigo e bata até homogêneo.
  3. Acrescente o fermento e metade do suco de laranja e bata até uniforme.
  4. Asse durante 40 minutos (esse tempo pode variar um pouco de acordo com o forno de cada um).
  5. Ao retirar do forno, deixe esfriar alguns minutos e então despeje o restante do suco de laranja por cima uniformemente, NÃO desenforme até o suco ter sido absorvido.

PS: As ilustrações do livro são uma graça então quis compartilhar aqui! Parabéns para o artista Anttonio Pereira 🙂

 

Pão Nosso

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Estação Onze, da Emily St. John Mandel, acabou de entrar para a minha galeria de recomendações, daqueles livros que você quer falar para outros lerem, tanto que você fica até meio chato. É bom mesmo.

No livro, uma pandemia assola a Terra e devasta 99% da população mundial. Poucos são os que escapam com vida, e mesmo os que conseguem, tem que viver uma realidade nova, uma vida mais primitiva, onde reina a lei do mais forte. Mas a narrativa por também volta ao passado, mostrando alguns personagens-chave antes da catástrofe acontecer. Assim acompanhamos a história de vários deles, Jeevan, Arthur, Miranda, Clark e a protagonista Kirsten.

Kirsten, pós-pandemia, é uma atriz na Sinfonia Itinerante, uma trupe de músicos e atores que viaja pelos EUA se apresentando pelas cidades no caminho. Ela é atriz desde criança, desde antes da Gripe da Geórgia, e coleciona recortes sobre um ator que se apresentava com ela em Rei Lear e que morre em cena, Arthur Leander. É Arthur que dá para Kirsten sua posse mais preciosa, as revistas em quadrinhos “Estação Onze”, de autoria da ex-mulher dele Miranda.

Já Clark, antigo amigo de Arthur, fica preso no Aeroporto de Severn City e lá funda o Museu da Civilização, onde deposita objetos que já foram significativos mas agora são só memórias de um tempo passado. Lá estão iPhones, iPads, televisões, revistas, cartões de crédito, passaportes e até uma moto. Eletricidade, combustível e internet são sonhos distantes, com toques de surrealidade para os sobreviventes.

Eu adorei esse livro, me peguei pensando em o quanto das nossas vidas parece automatizado mas na verdade depende de outras pessoas. Televisão, internet, luz, ar-condicionado, banho quente, tudo isso é um tipo de mágica para quem vive isolado no meio do mato. Essas invenções maravilhosas da humanidade dependem de uma cadeia de trabalho incessante. De pessoas trabalhando todo dia. Sem isso a civilização cai como dominós. E a maneira como Mandel escreve é realista, mas também otimista. A própria Sinfonia Itinerante que ela criou é um testemunho de fé: enquanto houver arte, estamos salvos. Enquanto houver arte, somos humanos.

Então é claro que eu fiquei pensando no que eu mais sentiria falta de comer se o mundo como eu conheço acabasse (mentalidade de gordinho, eu sei). E a minha resposta foi um ressoante “PÃO”. Eu adoro todos os tipos de pão. Aqui em casa esse negócio de sem glúten não cola (eu respeito quem topa, só não consigo ir junto). Eu acho que eu ia sonhar com pãezinhos variados, bem quentinhos com uma manteiguinha. Por isso a receita de hoje é um pão fácil e rápido de fazer, o tipo mais provável de se fazer se uma calamidade acontecer, a Piadina. A piadina, eu aprendi no livro do Panelinha, é um cruzamento de massa de pizza com foccacia. É uma delicia quentinha com umas ervas em cima e um azeite do lado.

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Piadina da Estação Onze (faz 6 pães de mais ou menos 15cm de comprimento)

Ingredientes:

  • 1 1/2 xícara de chá de farinha de chia (ou farinha de trigo integral se você não tiver)
  • 1 1/2 xícara de chá de farinha de trigo e mais um pouco para enfarinhar a mesa
  • 1 colher de chá de fermento em pó
  • 1 1/2 colher de chá de sal
  • 2 colheres de sopa de azeite
  • 1 1/4 xícara de chá de leite

Preparo:

  1. Numa tigela grande, junte a farinha, o sal e o fermento. Misture e abra um buraco no centro. Coloque o azeite bem no meio e vá esfregando a farinha com os dedos para misturar.
  2. Junte o leite em duas etapas e, com as mãos, misture bem, até formar uma bola. Transfira a massa para uma superfície de trabalho enfarinhada e sove por 3 minutos. No máximo!
  3. Enrole a massa para formar uma cobra e divida em 6 pedaços iguais. Cubra a massa com um pano de prato úmido (e não molhado, muito menos ensopado!).
  4. Coloque uma frigideira grande, de preferência de ferro, ou uma chapa, para aquecer em fogo alto. Abra um pedaço de massa com rolo de macarrão até ficar com cerca de 15 cm de diâmetro. Ou se quiser fazer ela mais compridinha, com 15cm de comprimento.
  5. Quando a frigideira estiver bem quente, coloque a massa e faça vários furos com um garfo; assim que o fundo começar a ficar com pintinhas escuras, uns 2 minutos, vire e deixe cozinhar por mais 2 minutos. Transfira para um prato e cubra com um pano de prato limpo, apenas para não esfriar, enquanto você faz as outras.

 

Projetos

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Com o ano novo, todos pensamos em nossos desejos e sonhos para o ano que vem a seguir, quais os projetos que gostaríamos de realizar. Pensei que era apropriado então falar na primeira semana do ano em um livro que fala de desse assunto. Então, O Projeto Rosie é o livro dessa semana.

Nele, Graeme Simsion fala de projetos e vontades. E também da imprevisibilidade da vida. O que me encantou no livro foi justamente como o autor mostrou que, mesmo para a pessoa mais prática, a beleza da vida está no inesperado. Planos e projetos são necessários e prazerosos, mas com frequência os momentos expontâneos são os mais memoráveis. E também que certas coisas simplesmente não dá para planejar.

Na trama, Don, um professor de genética portador da síndrome de Asperger, decide que está na hora de casar. Para isso ele começa o que ele chama de “Projeto Esposa”, uma busca sistemática e totalmente racional pela parceira ideal. Enquanto nessa busca, ele conhece Rosie, uma mulher que ele considera completamente inadequada para a posição de esposa, mas apesar disso ele decide ajudá-la no que ele denomina “Projeto Pai”. E daí por diante vocês podem imaginar o quê acontece, ou melhor ler.

Uma das coisas que eu achei muito bacanas do livro foi entender um pouco mais sobre pessoas que sofrem da Síndrome de Asperger, uma condição que faz com que essas pessoas tenham dificuldade de entender expressões faciais e figuras de linguagem, entre outras coisas, mas que podem ser savants em outras areas. No livro, Don se torna um expert em genética, artes marciais e coquetéis, e também aprende a cozinhar bem pratos que fazem parte do seu dia-a-dia para ter um cardápio perfeitamente balanceado. Tudo de acordo com uma lógica impecável. Além disso, o livro é um dos poucos romances contados do ponto vista masculino, o que eu achei uma mudança bacana.

Eu, quando li o livro fiquei sonhando com uma bela lagosta, mas infelizmente não consegui arranjar nenhuma para fazer minha primeira experiência. Então, como não tem cão caça com gato, comprei uma bela peça de salmão e o resultado foi tão bom que entrou para o nosso rol de pratos favoritos. A lagosta fica de projeto para esse ano!

O Salmão do Dr Don Tilman (serve entre 4 e 6 pessoas)

Ingredientes

  • 1 kg de salmão
  • 2 cebolas roxas
  • ervas de provence
  • pimenta rosa
  • azeite e sal
  • papel alumínio

Modo de preparo:

  1. Pré-aqueça o forno à 180 graus.
  2. Forre uma travessa grande, aonde o peixe caiba inteiro com o papel alumínio, deixando o bastante para “embalar” o peixe depois.
  3. Tempere o peixe com sal, azeite e as ervas de provence. Coloque na travessa.
  4. Corte as cebolas em rodelas finas e jogue por cima do peixe. Jogue a pimenta rosa por cima.
  5. Abaixe o peixe com o papel alumínio e coloque no forno. Deixe assar por volta de 30 minutos (pode ser um pouco mais ou até um pouco menos, depende da potência do forno, por isso preste atenção).