Melância

O restaurante estava lotado hoje. Desde de manhã tinha sido frenético, como se eu estivesse em plena São Silvestre. Só mais um kilometro, eu fiquei pensando mentalmente enquanto cortava os filés. Só mais um kilometro, enquanto preparava o Beurre Blanc. Só mais um quilômetro, enquanto empratava o cherne com purê de banana verde. E assim foi. Agora finalmente posso sentar e respirar de novo. Sensação de dever cumprido, mas bem sei que amanhã começa tudo de novo.

Não estou com apetite para comida de verdade. Depois de tantas horas só pensando e executando os pratos elaborados do restaurante, acho que meu cérebro está rejeitando qualquer coisa que pareça gourmet. Além disso tem o calor; tá mesmo um calor infernal e dentro da cozinha é sempre pior ainda. Meio que tira a fome, essa temperatura inóspita.

Fico sentada aqui na ilha central da cozinha, olhando os lavadores terminarem a louça para amanhã, tentando decidir se como alguma coisa ou se simplesmente vou pra casa. E então vejo a melancia no cantinho da bancada de inox.

A melancia está aberta, cortada na metade. Eu consigo ver sua casca verde, seu miolo rosa e suas sementes pretas. Tem poucas sementes essa melancia. As sementes parecem gotinhas de nanquim espalhadas com precisão geométrica, como se alguém tivesse medido com régua e compasso, e depois pintado uma a uma. É arte essa fruta. Não tem aquele negócio de que a natureza tem a sequência de Fibonacci em várias coisas e por isso a gente acha essas coisas mais harmônicas? Deve ter sequência de Fibonacci nessa melancia.

Levanto e pego uma faca afiada no faqueiro, a minha faca. Pego a melância, que é mais leve do que parece, e corto exatamente na metade. A faca desliza fácil até chegar na casca, onde eu tenho que fazer um pouco mais de esforço. Vou cortando com cuidado, e no final vejo que cortei ela toda em cubinhos perfeitos, por hábito mesmo. Depois de um tempo trabalhando na cozinha, certas coisas viram automáticas.

Coloco os cubinhos em um potinho bonito de cerâmica e me sento perto da janela, um copo de água com gelo do lado. O vento sopra quente no meu rosto e eu como o primeiro cubinho rosa. Tem gosto de infância, de verão, de horas a fio sem nada e tudo pra fazer.

Aquele pedacinho esponjoso me leva de volta à casa do Lipe. Cada mordida solta uma aguinha doce e me lembro da tia Gisele me entregando um pote enorme de plástico cheio de melancia, enquanto a gente ficava estendido secando no deque da micro piscina deles. De comer um atrás do outro enquanto o sol queimava meu rosto, o líquido escorrendo pelo cantinho da boca. O Lipe rindo da minha falta de graça, ou como diria a minha mãe, de compostura. Modos, Mariana. Modos.

Como um cubinho menos doce, aquela parte mais esbranquiçada que fica antes da casca. Lembro do Lipe falando que melancia era isopor com adoçante. E de como a gente riu dessa besteira, como se fosse genial. Era tão bom ter dez anos!

Naquela época a gente ainda contava tudo um pro outro. Iamos para todos os lugares juntos, irmãos siameses. Um, a sombra do outro. Um dia você era Um, no outro Sombra. Naquela época, eu não podia conceber passar um dia inteiro sem falar com ele. Era tão necessário que as vezes, se eu pensava alguma coisa, era como se aquele pensamento não existesse se o Lipe não soubesse dele. Ele era o meu portal para a realidade, e eu achava que ia parar de existir se ele não estivesse ali. A gente existe sem a nossa sombra? Ou a sombra existe sem a gente? Tem alguma diferença entre um e outro?

 

 

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