De molho

canja-webOutro dia fiquei mal de alergia (ô, desgraça) e acabei meio de molho. Quando saí para ir na padaria rapidinho, eu espirrava tanto que as pessoas me olhavam com peninha e eu tava querendo “PUFF! desaparecer” de vergonha. Mas enfim, nesse clima resolvi ficar em casa e ler, e logo, tcharan me deparei com um livro que tinha a ver com o meu momento: “A febre” da Megan Abbot.

Numa cidade americana do interior, adolescentes começam a ter colapsos que incluem convulsões, visões e tiques nervosos. As primeiras vítimas são parte do grupo de garotas populares da escola, Lise e Gabby. Lise, a primeira a apresentar os sintomas da febre, tem um ataque tão severo que é hospitalizada e fica em coma. Em seguida, Gabby, caí em meio a uma apresentação de violocelo, mas consegue voltar para casa. As duas, Lise e Gabby, são as melhores amigas de Deeny Nash, filha de um dos prefessores da escola e irmã de Eli, o astro de hockey e gatinho mais desejado da escola. Em pouco tempo, outras meninas começam a apresentar sintomas da “febre”, o que causa medo e pânico entre os pais e membros da comunidade local, que buscam encontrar a fonte do mal que está acometendo as adolescentes, culpando ora vacinas, ora o lago poluído que existe na cidade, e até a rede hídrica local.

No centro da situação estão os Nash, uma família ainda sofrendo a ausência da matriarca que separou-se de Tom e mudou para outra cidade, sem nunca mais colocar os pés de volta aonde morava. Deeny se sente culpada, pois suas amigas estão doentes e ela não (além de outras coisas), Eli está perdido na situação, como todos os meninos adolescentes sempre estão, e Tom está tentando achar a melhor maneira de ser pai e também mãe para seus filhos.

Para um livro onde não acontece tanta coisa assim, “A febre” é eletrizante. Não vou dizer que o final é muito surpreendente, por que a partir de certo momento as dicas começam a ficar mais na cara, mas eu achei o livro bem escrito e super interessante. Não quero estragar a surpresa de ninguém, então só vou dizer aqui que o comportamento adolescente é analisado com precisão e pintado de maneira ultra realista.

Como eu tava mais para lá do que para cá, acompanhei esse livro com a receita tradicional para dodóis do mundo todo: canja de galinha! Existe melhor acompanhamento para “A Febre” do que uma canja quentinha e um cobertorzinho?

Canja para quem está de molho (serve 3-4 pessoas)

Ingredientes:

  • 500 g de peito de frango desfiado
  • 2 litros de caldo de galinha
  • 1 xícara de chá de cenouras ralada
  • 3/4 xícara de chá de arroz integral já pronto
  • 1 pitada de noz-moscada
  • azeite, sal e pimenta-do-reino a gosto
  • cebolinha picada a gosto

Modo de preparo:

  1. Numa frigideira grande, adicione uma quantidade generosa de azeite e então cozinhe o frango desfiado, temperando-o com sal e pimenta.
  2. Enquanto isso, numa panela, coloque o caldo de galinha, tampe e leve ao fogo médio até ferver. Em seguida, abaixe o fogo, acrescente o  frango e deixe cozinhar por 40 minutos.
  3. Retire o peito de frango da panela e reserve. Acrescente o arroz, a cebolinha picada e a cenoura ao caldo da panela e deixe cozinhar por 10 minutos.
  4. Retorne o frango desfiado para a panela com a sopa. Tempere com noz-moscada, sal e pimenta-do-reino. Deixe cozinhar por mais 10 minutos.

Melância

O restaurante estava lotado hoje. Desde de manhã tinha sido frenético, como se eu estivesse em plena São Silvestre. Só mais um kilometro, eu fiquei pensando mentalmente enquanto cortava os filés. Só mais um kilometro, enquanto preparava o Beurre Blanc. Só mais um quilômetro, enquanto empratava o cherne com purê de banana verde. E assim foi. Agora finalmente posso sentar e respirar de novo. Sensação de dever cumprido, mas bem sei que amanhã começa tudo de novo.

Não estou com apetite para comida de verdade. Depois de tantas horas só pensando e executando os pratos elaborados do restaurante, acho que meu cérebro está rejeitando qualquer coisa que pareça gourmet. Além disso tem o calor; tá mesmo um calor infernal e dentro da cozinha é sempre pior ainda. Meio que tira a fome, essa temperatura inóspita.

Fico sentada aqui na ilha central da cozinha, olhando os lavadores terminarem a louça para amanhã, tentando decidir se como alguma coisa ou se simplesmente vou pra casa. E então vejo a melancia no cantinho da bancada de inox.

A melancia está aberta, cortada na metade. Eu consigo ver sua casca verde, seu miolo rosa e suas sementes pretas. Tem poucas sementes essa melancia. As sementes parecem gotinhas de nanquim espalhadas com precisão geométrica, como se alguém tivesse medido com régua e compasso, e depois pintado uma a uma. É arte essa fruta. Não tem aquele negócio de que a natureza tem a sequência de Fibonacci em várias coisas e por isso a gente acha essas coisas mais harmônicas? Deve ter sequência de Fibonacci nessa melancia.

Levanto e pego uma faca afiada no faqueiro, a minha faca. Pego a melância, que é mais leve do que parece, e corto exatamente na metade. A faca desliza fácil até chegar na casca, onde eu tenho que fazer um pouco mais de esforço. Vou cortando com cuidado, e no final vejo que cortei ela toda em cubinhos perfeitos, por hábito mesmo. Depois de um tempo trabalhando na cozinha, certas coisas viram automáticas.

Coloco os cubinhos em um potinho bonito de cerâmica e me sento perto da janela, um copo de água com gelo do lado. O vento sopra quente no meu rosto e eu como o primeiro cubinho rosa. Tem gosto de infância, de verão, de horas a fio sem nada e tudo pra fazer.

Aquele pedacinho esponjoso me leva de volta à casa do Lipe. Cada mordida solta uma aguinha doce e me lembro da tia Gisele me entregando um pote enorme de plástico cheio de melancia, enquanto a gente ficava estendido secando no deque da micro piscina deles. De comer um atrás do outro enquanto o sol queimava meu rosto, o líquido escorrendo pelo cantinho da boca. O Lipe rindo da minha falta de graça, ou como diria a minha mãe, de compostura. Modos, Mariana. Modos.

Como um cubinho menos doce, aquela parte mais esbranquiçada que fica antes da casca. Lembro do Lipe falando que melancia era isopor com adoçante. E de como a gente riu dessa besteira, como se fosse genial. Era tão bom ter dez anos!

Naquela época a gente ainda contava tudo um pro outro. Iamos para todos os lugares juntos, irmãos siameses. Um, a sombra do outro. Um dia você era Um, no outro Sombra. Naquela época, eu não podia conceber passar um dia inteiro sem falar com ele. Era tão necessário que as vezes, se eu pensava alguma coisa, era como se aquele pensamento não existesse se o Lipe não soubesse dele. Ele era o meu portal para a realidade, e eu achava que ia parar de existir se ele não estivesse ali. A gente existe sem a nossa sombra? Ou a sombra existe sem a gente? Tem alguma diferença entre um e outro?

 

 

Cozinha Literária agora no blog do Cantão

Gente, uma novidade maravilhosa: agora o Cozinha Literária participa do blog da Cantão! Muito legal, né? Duas vezes por mês vai ter um post meu lá e eu estou super animada. Dêem um pulinho para conferir e aproveitem para ver os outros posts pra lá de bacanas que têm lá. O primeiro post do Cozinha Literária para o Cantão é sobre “As crônicas de gelo e fogo” do George R. R. Martin e está recheado! Aqui embaixo tem uma versão mais resumida 😉

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Se você não está vivendo em uma caverna isolado do mundo, com certeza já ouviu falar dos livros dessa semana. “As crônicas do gelo e do fogo” de George R. R. Martin, que se transformaram em “Game of Thrones” (título do primeiro livro) da HBO, deve ser a série, tanto literária quanto filmográfica, de maior bafafá dos últimos tempos.

Eu li os primeiros quatro livros antes da HBO transformá-los em série, um pouco antes só. E como a maioria dos nerds de carteirinha, fiquei viciada. “As crônicas do gelo e do fogo” é uma saga de fantasia, mas o pano de fundo lembra bastante nossa época medieval. Quando li o primeiro livro, fiquei chocada com os personagens e com a construção do mundo que o autor conseguiu realizar: Westeros é tão bem descrito, suas tradições, passado e conflitos, são delineados de forma tão detalhada e complexa que é quase inacreditável. E essa sensação de perplexidade com o trabalho do autor só fez aumentar com cada livro. Aqui tem um video explicando bem explicadinho para quem ficou curioso.

Nos livros acompanhamos a trajetória de vários personagens, da família Stark (os mocinhos), Lannister (vilões), Tyrell (oportunistas), Baratheon (doidos), Greyjoy (mais doidos), Arryn (bizarramente doidos), Tully (pasmaceira), Martell (sensualizantes) e Targaryen (dragões!), disputa por quem governará os Sete Reinos e sentará no trono de ferro de Westeros. No ínicio, Robert Baratheon, o rei, casado com Cersei Lannister, a rainha má, má, má, vai até Winterfell, aonde vivem os Stark, para que Robert convença seu amigo de infância Ned Stark a ser a Mão do Rei, uma posição invejável na política dos sete reinos. Baratheon também tem a intenção de unir a sua linhagem com a dos Stark, casando seu filho e herdeiro Joffrey com Sansa, a filha mais velha dos Stark. Depois de Robert insistir, os Stark se mudam para a capital e aí começam todos os problemas, que em breve envolve toda Westeros em guerra.

A receita de hoje é inspirada na fome de matança de George e sua caneta sanguinária. Por causa do Casamento Vermelho, um episódio marcante da saga, pensei logo em um Gazpacho. Vermelho como sangue, mas servido frio como a vingança!

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Gazpacho para o Sr. George R. R. Martin (serve de 3 a 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 4 a 5 tomates grandes
  • 3/4 de pepino
  • 1 pimentão verde pequeno
  • 4 dentes de alho
  • 3 pães franceses amanhecidos
  • sal e azeite a gosto

Preparo:

  1. Tire os miolos dos pães e coloque em uma combuca com 100ml de água. Jogue fora a casca.
  2. Faça um pequeno corte com a ponta da faca na parte dos tomates.
  3. Ferva uma leiteira inteira de água. Coloque os tomates em uma vasilha funda e jogue a água fervente sobre eles. Deixe por um minutos os tomates submersos na água quente e depois escorra e separe.
  4. Tire as sementes do pimentão e pique grosseiramente. Reserve.
  5. Descasque o pepino o alho e corte grosseiramente. Reserve.
  6. Tire a casca dos tomates. Vai sair super fácil por causa da escaldada anterior. Corte-os de qualquer jeito.
  7. Coloque todos os ingredientes no liquidificador e bata até ficar homogêneo. Tempere com sal e azeite. (Não botei pimenta porque já leva pimentão e alho).
  8. Pode servir de entradinha com um pouco de manjericão, nozes ou até um queijinho de cabra.

Tag: Versatile Blogger Award

vba

Eu fui indicada pela A Estante Amarela para responder uma tag. Isso é novidade pra mim, gente! Então, obrigada Yasmim 🙂

Há umas regrinhas, que são:

  • Agradeça o blogueiro que te indicou.
  • Inclua em seu post um link de volta ao Blog que o indicou.
  • Nomeie  blogueiros que você descobriu recentemente ou que você siga regularmente.
  • Avise os blogueiros que foram indicados.
  • Compartilhe 10 fatos sobre si mesmo.
  • Adicione a imagem do prêmio Versatile Blogger Award no seu post.

Então, os dez fatos são:

1- Eu tenho três sobrinhos lindos que são meus xodós.

2- Sou casada há cinco anos com uma pessoa pra lá de especial.

3- Adoro vôlei e tênis, nunca perco a Superliga nem os Grand Slams.

4- Sempre tenho uma fila gigante de livros para ler, no momento estou lendo dois: “A sombra do vento” e “Eu te darei o sol”.

5- Amo desenhar tanto que hoje em dia é isso que eu faço profissionalmente: desenho estampas!

6- Sou viciada em Netflix, mate e pão de queijo.

7- Eu queria muito gostar de ir a academia, mas eu gosto mesmo é de jogar totó e ping-pong.

8- Eu acredito em reencarnação e que tudo acontece por uma razão.

9- Eu sempre choro com livro/filme triste. (#manteigona)

10- Nasci sem GPS interno e me perco até pra ir na padaria. Só o Waze salva! rsrs

Então, para responder também segue aí: Depois que li, Um fôlego, Breakfast of Books, Blog de Livros e Eurico Gomes.

 

Poética

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Semana passada eu achei um livro que eu adoro ao abrir umas caixas da mudança, “Receita pra lavar palavra suja” é uma coletânea de poemas da Viviane Mosé. É um livro fino, em todos os sentidos da palavra.

Viviane Mosé é uma das poetisas brasileiras de maior expressão dos últimos tempos. O que eu adoro nesse livro é a contraposição de delicadeza e força que existe nele. Os poemas da Viviane se apropriam do português com esperteza, mas sem perder o lirismo. As palavras flutuam em diferentes significados como é natural na poesia, mas em Viviane elas exibem um peso também. Como nesse poema abaixo:

“Ando com um balde de água embaixo de cada olho.

Preciso ir bem devagar

Senão derrama.”

Eu não leio poesia com frequência, sou mais dos romances mesmo. Mas acho que os poemas nesse livro são uma delícia, um livro leve mas cheio de conteúdo e com alguns momentos de surpresa. Logo o equivalente desse livro para mim é uma massa simples mas especial. Sustância e sabor, sem perder a leveza. Prato para gente esperta, mas que gosta de poesia.

Taglietelle Poético (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 500g de tagliatelle de boa qualidade
  • Raspas de 2 a 3 limões sicilianos
  • 2 colheres de sopa de manteiga
  • 150g de queijo de cabra
  • 1/4 de xícara de aroeira (pimenta rosa)
  • Azeite e sal a gosto

Preparo:

  1. Coloque a água do macarrão para ferver em uma espagueteira e adicione sal.
  2. Enquanto a água ferve, rale os limões e reserve.
  3. Coloque um fio de azeite na água e adicione o macarrão, com atenção ao tempo de cozimento indicado. Acompanhe, pois nem sempre o pacote coloca o tempo ideal.
  4. Escorra o tagliatelle e então coloque na travessa que irá servir. Coloque a manteiga em duas partes e misture bem. Teste se está bom de sal, e se necessário coloque mais.
  5. Adicione as raspas de limão aos poucos para ficar bem homogêneo.
  6. Adicione o queijo de cabra (se estiver inteiro corte em cubinhos de 1 cm) e a pimenta. Misture e sirva ainda quente.