Da arte de perder

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No ano passado, eu li “Diga aos lobos que eu estou em casa” , de Carol Rifka Brunt, para um clube do livro que eu participo no Goodreads. Nele, June, a narradora, uma menina de catorze anos, está lidando com a morte recente de Finn, seu tio e padrinho, e sua pessoa favorita no mundo. O livro se passa nos anos oitenta, sendo que June mora em um subúrbio de New York, mas com visitas frequentes à cidade, que era onde o tio morava.

Finn era um artista conhecido e, quando sente que começa a sucumbir a AIDS, decide pintar um retrato das sobrinhas, June e Greta. A mãe de June concorda e leva as filhas para visitá-lo no seu apartamento. As irmãs tem um relacionamento difícil. Greta, um pouco mais velha e com um talento para cantar é a estrela da peça da escola, enquanto June é esquisita e solitária; gosta de ouvir o Réquiem de Mozart e de se imaginar vivendo na Idade Média. Ela se sente incompreendida por todos, só encontrando um igual em Finn, e por isso ela fica devastada com a morte dele. No enterro do tio, June descobre que ele tinha um namorado, Toby, e ela fica em choque ao imaginar que existia toda uma parte da vida dele que ela simplesmente ignorava. Toby tenta então fazer amizade com June (o que eu achei mega esquisito, porque ele é um adulto e tudo bem que ele está sofrendo, mas a menina tem 14 anos… Mas vá lá, licença poética). Enfim, depois de um tempo os dois acabam formando uma amizade da qual a base é a memória de Finn.

O interessante do livro é que ele fala de perda e de relações familiares sem nenhum filtro. Como a narradora é jovem, ela ainda não é madura para entender todas as interações de que participa, nem mesmo as suas próprias emoções. Para ser bem honesta, June é meio irritante. Mas no contexto do livro, é importante ela ser assim, tapada, ingênua e egoísta. Quem com catorze anos não era um pouco (ou muito) dessas coisas? Outra coisa bacana do livro é abordagem do tema artístico. O quadro que Finn pinta das sobrinhas vira alvo de especulação no mercado de arte, pois havia tempos que ele não exibia nenhum trabalho novo. Mas as irmãs tinham transformado o quadro em uma forma de comunicação entre elas. Se o papel da arte é expressar, então se era que elas já não haviam dado ao quadro seu melhor uso? Se o quadro era delas e para elas, por que elas teriam que expô-lo?

Quando eu terminei de ler esse livro, me lembrei de um poema da Elizabeth Bishop, “One Art”. Esse poema é de uma lindeza devastadora (como pode algumas linhas de palavras parecem um buraco negro de bonitezas e profundezas?). Assim como o livro, o poema fala que a perda é um aprendizado, que muitas vezes é doloroso, mas que pode também ser bonito de uma maneira peculiar. A arte de perder, como Bishop diz no poema, não é difícil de dominar. E não é, apesar de as vezes parecer, um desastre.

Como estamos falando de coisas perdidas, a receita de hoje é, claro, o Pain Perdu. Ou para nós brasileiros, a famosa rabanada. Aquele pãozinho que você já estava dando como perdido, com essa receita, ganha uma segunda vida ainda mais gostosa do que a primeira! Não sei porque a gente só como no Natal, na França eles comem quando dá na telha (rsrs).

Pain Perdu ou a nosssa maravilhosa Rabanada (serve quatro porções)

Ingredientes:

  • 2 pães franceses ou 4 brioches
  • 75g de manteiga
  • 1 ovos
  • 1 xícara a 1 xícara e meia de leite
  • 1/2 xícara de açúcar
  • 1/2 xícara de canela
  • 1 colher de chá de extrato de baunilha
  • Sorvete de baunilha para servir

Preparo:

  1. Bata com um garfo 1 ovo e 1 xícara ou mais de leite integral e tempere com uma pitada de sal e uma colherinha de açúcar, comum ou baunilhado. Adicione o extrato de baunilha.
  2. Cubra as fatias grossas de pão duro  (fatias de 1,5cm de espessura) com a mistura e deixe que absorvam rapidamente o líquido. Enquanto isso, derreta uma colher generosa de manteiga numa frigideira grande, em fogo baixo, para que a manteiga não queime.
  3. Retire as fatias de pão da tigela com um garfo, escorra o excesso de líquido e douro as fatias dos dois lados. No prato, com os pães ainda quentes, polvilhe com o açúcar e canela.
  4. Se quiser finzalizar com chave de ouro, sirva com sorvete de baunilha (ou melhor ainda de macadâmia da Haagen-Daaz).

PS: A ilustração de hoje faz menção ao livro. Quem leu/ler vai entender 😉

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