No escuro

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Gillian Flynn é mais conhecida por seu livro “Garota Exemplar”, que foi transformado em um filme dirigido por David Fincher e estrelando o Ben Affleck, mas hoje quero falar de outro livro dela, o “Lugares Escuros” (que também irá virar filme, dessa vez com a Charlize Theron).

Em “Lugares Escuros”, acompanhamos a vida de Libby Day, uma mulher traumatizada pela perda de sua família em um massacre na sua casa quando ela tinha apenas sete anos. O testemunho da então pequena Libby foi essencial para mandar seu irmão mais velho, Ben, para a cadeia com uma sentença de vida atrás das grades. Logo no começo do livro, Libby é procurado por um grupo chamado “Kill Club”, que tem como hobby investigar casos famosos não resolvidos. O mais recente caso do grupo é o massacre da família Day e eles estão convencidos de que Ben é inocente.

Devido à forma como o romance é escrito, os vários pontos de vista em cada capítulo são usados ​​para avançar a investigação de Libby na busca da verdade e, finalmente, descobrir quem matou sua família e por quê. O enredo é revelado em camadas e o leitor não sabe ao certo como tudo vai se juntar no final. Esse livro não é rápido, se desenvolve lentamente, porém o desfecho é surpreedente (para mim, mais até do que o de “Garota Exemplar”). Na maior parte do livro, Libby tenta achar soluções mas é constantemente atrapalhada por outros, inclusive seu pai, o perdedor Runner,e até mesmo seu próprio irmão, Ben, que deveria ser o maior interessado na descoberta que ocasionaria sua liberdade.

Libby é uma personagem cheia de lugares escuros. Logo de cara fica evidente que o trauma pelo qual passou a deixou incapaz de levar uma vida normal. A protagonista, não é adorável, mas cresce no leitor ao sermos atraídos para o seu mundo. Acabamos sentindo sua solidão e seu medo do que existe no mundo real: dá vontade de cuidar de Libby, como se ela ainda fosse a menininha de sete anos que ficou sem família. Torcemos para ela, mas ao mesmo tempo nos perguntamos se realmente queremos saber as respostas. O que aconteceu nos momentos mais escuros da vida de Libby? Ben é culpado ou não?

Então pensando no livro, a receita de hoje é cheia de escuridão e segredos: Torta Fudge. Essa torta é densa e concentrada no chocolate. Essa torta é uma tentação de tão gostosa. Na última vez que eu fiz (que foi também a primeira), acabou rapidinho, ainda bem. Então se você quiser que dure, esconda em um lugar escuro que só você saiba.

Torta Fudge da Escuridão (serve de 8 a 10 pessoas)

Ingredientes:

  • 200 g de chocolate amargo
  • 200 g de manteiga
  • 1 xícara de açúcar de confeiteiro
  • 5 ovos
  • 1/3 xícaras de amido de milho

Modo de Preparo:

  1. Preaqueça o forno a 180 ºC.
  2. Unte com manteiga uma assadeira redonda de 24 cm de diâmetro com fundo removível. Corte um quadrado de papel manteiga grande o suficiente para cobrir o fundo e sobrar. Feche o aro e dobre a sobra de papel para baixo, para que a massa líquida não escorra pelo encaixe. Corte também uma tira de 80 cm x 12 cm e forre a parede da fôrma. Espalhe uma camada fina de manteiga sobre o papel.
  3. Numa tábua, pique o chocolate e corte a manteiga em cubos. Transfira para uma tigela refratária grande.
  4. Derreta a manteiga com o chocolate em banho-maria no microondas. O tempo varia de acordo com a potência, então fique de olho e só deixe até o chocolate derreter e antes dele começar a cozinhar.
  5. Acrescente o açúcar ao chocolate, e misture com carinho com uma espátula.
  6. Quebre um ovo de cada vez numa tigelinha e transfira para outro recipiente – se um deles estiver estragado você não perde toda a receita. Com um garfo misture as gemas com as claras, sem bater.
  7. Em seguida, junte os ovos à massa de chocolate. Misture delicadamente com a espátula, com cuidado para não formar bolhas: esse é o segredo para o bolo ficar denso e bem cremoso.
  8. Por último, peneire o amido sobre a massa e misture até ela ficar lisa.
  9. Transfira para a fôrma preparada e leve ao forno preaquecido. Deixe assar por 20 minutos – o interior deve ficar úmido e sai do forno com cara de que ainda não está todo assado.
  10. Deixe esfriar por 20 minutos, cubra com filme e leve à geladeira por 1 hora para firmar antes de servir.
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Matemática

Esse substantivo me pertence

Esse adjetivo é meu eixo

Esse verbo inflexível

É meu para todo sempre

 

Pode parecer irracional

Mas cada frase é tangente

Se colocar cada uma no plano certo

Quem sabe nossas retas não se encontram no infinito?

 

E se a nossa menor distância não fosse um ponto

E sim uma conjunção aditiva

&

Ache o seu Zen

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Na faculdade, meu (então) namorado me deu um livro que ele tinha acabado de ler e disse: “Lê. Você vai gostar.” Como boa namorada obediente que eu era, eu li. E realmente gostei. Esse livro se chama “Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas” de Robert Pirsig. O título é meio esquisito, para combinar com o livro que também é diferente da literatura bate-caixa de todo dia: é um livro de reflexões e para reflexões.

Nesse clássico americano da década de 70, pai (o próprio autor, apesar do livro não dizer isso) e filho fazem uma roadtrip de moto por estradas secundárias americanas, acompanhados por um casal de amigos, indo de Minnesota para a Califórnia. Durante a viagem, o narrador utiliza a paisagem e a manutenção de sua motocicleta como ponto de partida para reflexões filosóficas, sendo que ele foca bastante na questão da tecnologia.

Na década de setenta, quando o movimento hippie ainda era forte nos EUA, muita gente pregava um modo mais natural de viver, maior contato com a natureza e um certo desprezo pelo máquinário tecnológico, que era visto como capitalista e agressivo. No livro, o casal Sutherland que viaja com Chris e o pai, são desta vertente mais romântica, aonde eles se prendem mais ao ideal do que ao prático. Já o narrador tem um ponto de vista mais analítico, onde ele entende que a tecnologia pode possibilitar melhores interações com a natureza, como quando ele diz no início do livro que viajar na sua moto, sentindo o vento e estando exposto ao ambiente, fazia o sentir-se parte daquele cenário.

Ao longo da viagem, vamos conhecendo melhor a história do narrador e seu passado conturbado. Ele, que era professor em uma universidade foi institucionalizado após se perder na sua busca pela “Qualidade”. Nessas memórias, ele se refere ao seu eu passado como “Fedro”. A trajetória de Fedro então vai dando forma aos ensinamentos que pai e filho compartilham na estrada, até se atingir o equilíbrio.

Eu sei que esse livro é antigo, mas eu acho ele muito atual. Em todos os nichos de consumo existe um retorno ao artesanal. Comida ôrganica, reciclagem de materiais, reutilização de produtos, e até cerveja artesanal, hoje nossa sociedade que passou um bom tempo só consumindo, está se preocupando em consumir mas o fazer pensando em como está consumindo. Essa busca pelo equilíbrio, o mesmo sonho utópico dos filósofos gregos de antigamente, é justamente o Zen do título.

A receita de hoje é um clássico da naturebice. Mas esse clássico natureba só existe com uma mãozinha da tecnologia, o bom e velho liquidificador. Então aí vai, um belo suco verde para você já começar o dia zen.

Suco Verde Zen

Ingredientes:

  • 1/2 copo de couve
  • 1/2 maçã cortada em cubos
  • 2 colheres de chá de mel
  • 1 copo de água gelada
  • 1/2 copo de suco limão
  • gelo a vontade (eu boto gelo em tudo, mas se você não curte, é só não colocar)

Preparo:

  1. Bata tudo no liquificador. Tá pronto! Molezinha máxima 😉

Da arte de perder

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No ano passado, eu li “Diga aos lobos que eu estou em casa” , de Carol Rifka Brunt, para um clube do livro que eu participo no Goodreads. Nele, June, a narradora, uma menina de catorze anos, está lidando com a morte recente de Finn, seu tio e padrinho, e sua pessoa favorita no mundo. O livro se passa nos anos oitenta, sendo que June mora em um subúrbio de New York, mas com visitas frequentes à cidade, que era onde o tio morava.

Finn era um artista conhecido e, quando sente que começa a sucumbir a AIDS, decide pintar um retrato das sobrinhas, June e Greta. A mãe de June concorda e leva as filhas para visitá-lo no seu apartamento. As irmãs tem um relacionamento difícil. Greta, um pouco mais velha e com um talento para cantar é a estrela da peça da escola, enquanto June é esquisita e solitária; gosta de ouvir o Réquiem de Mozart e de se imaginar vivendo na Idade Média. Ela se sente incompreendida por todos, só encontrando um igual em Finn, e por isso ela fica devastada com a morte dele. No enterro do tio, June descobre que ele tinha um namorado, Toby, e ela fica em choque ao imaginar que existia toda uma parte da vida dele que ela simplesmente ignorava. Toby tenta então fazer amizade com June (o que eu achei mega esquisito, porque ele é um adulto e tudo bem que ele está sofrendo, mas a menina tem 14 anos… Mas vá lá, licença poética). Enfim, depois de um tempo os dois acabam formando uma amizade da qual a base é a memória de Finn.

O interessante do livro é que ele fala de perda e de relações familiares sem nenhum filtro. Como a narradora é jovem, ela ainda não é madura para entender todas as interações de que participa, nem mesmo as suas próprias emoções. Para ser bem honesta, June é meio irritante. Mas no contexto do livro, é importante ela ser assim, tapada, ingênua e egoísta. Quem com catorze anos não era um pouco (ou muito) dessas coisas? Outra coisa bacana do livro é abordagem do tema artístico. O quadro que Finn pinta das sobrinhas vira alvo de especulação no mercado de arte, pois havia tempos que ele não exibia nenhum trabalho novo. Mas as irmãs tinham transformado o quadro em uma forma de comunicação entre elas. Se o papel da arte é expressar, então se era que elas já não haviam dado ao quadro seu melhor uso? Se o quadro era delas e para elas, por que elas teriam que expô-lo?

Quando eu terminei de ler esse livro, me lembrei de um poema da Elizabeth Bishop, “One Art”. Esse poema é de uma lindeza devastadora (como pode algumas linhas de palavras parecem um buraco negro de bonitezas e profundezas?). Assim como o livro, o poema fala que a perda é um aprendizado, que muitas vezes é doloroso, mas que pode também ser bonito de uma maneira peculiar. A arte de perder, como Bishop diz no poema, não é difícil de dominar. E não é, apesar de as vezes parecer, um desastre.

Como estamos falando de coisas perdidas, a receita de hoje é, claro, o Pain Perdu. Ou para nós brasileiros, a famosa rabanada. Aquele pãozinho que você já estava dando como perdido, com essa receita, ganha uma segunda vida ainda mais gostosa do que a primeira! Não sei porque a gente só como no Natal, na França eles comem quando dá na telha (rsrs).

Pain Perdu ou a nosssa maravilhosa Rabanada (serve quatro porções)

Ingredientes:

  • 2 pães franceses ou 4 brioches
  • 75g de manteiga
  • 1 ovos
  • 1 xícara a 1 xícara e meia de leite
  • 1/2 xícara de açúcar
  • 1/2 xícara de canela
  • 1 colher de chá de extrato de baunilha
  • Sorvete de baunilha para servir

Preparo:

  1. Bata com um garfo 1 ovo e 1 xícara ou mais de leite integral e tempere com uma pitada de sal e uma colherinha de açúcar, comum ou baunilhado. Adicione o extrato de baunilha.
  2. Cubra as fatias grossas de pão duro  (fatias de 1,5cm de espessura) com a mistura e deixe que absorvam rapidamente o líquido. Enquanto isso, derreta uma colher generosa de manteiga numa frigideira grande, em fogo baixo, para que a manteiga não queime.
  3. Retire as fatias de pão da tigela com um garfo, escorra o excesso de líquido e douro as fatias dos dois lados. No prato, com os pães ainda quentes, polvilhe com o açúcar e canela.
  4. Se quiser finzalizar com chave de ouro, sirva com sorvete de baunilha (ou melhor ainda de macadâmia da Haagen-Daaz).

PS: A ilustração de hoje faz menção ao livro. Quem leu/ler vai entender 😉