Vida (nada) fácil

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Em “Cidade de Ladrões”, David Benioff (um dos produtores e roteiristas de Game of Thrones!) conta a história de Lev, um adolescente russo judeu que decide ficar em Leningrado durante o final da segunda guerra mundial. No livro, acompanhamos Lev e Kolya, um soldado russo aspirante a poeta, em uma busca maluca por ovos. Isso mesmo, ovos.

Lev e Kolya são presos em Leningrado e levados a um coronel do exército russo. Os dois não tem nada em comum, fora a missão que recebem do coronel: achar uma dúzia de ovos em uma Leningrado destruída e faminta. A missão os coloca em situações inusitadas e perigosas, e todos os momentos difíceis pelos quais passam juntos fazem com que os dois acabem formando uma amizade de conveniência. Kolya e Lev são opostos (Benioff os coloca em lados extremos do espectro de propósito, claro): um é moreno, outro louro, uma alto, outro mais baixo, um judeu e outro russo (mas com pinta de alemão), um introvertido, o outro extrovertido. Esse contraste vai sendo explorado no livro de forma que o autor aos poucos começa a borrar um pouco as linhas. Pode Lev ser um pouco mais Kolya e vice-versa? É divertido ver o impacto de um personagem sobre o outro.

Enfim, na busca pelos ovos o par improvável acaba encontrando mais que ovos, claro. Mas o que fica na cabeça depois do livro é justamente essa sensação de que muita coisa pode ser atingida quando você tem a companhia certa e um pouco de sorte. De certa maneira é um livro sobre o amadurecimento, só que ele se passa durante a guerra então ao invés de Lev lidar com os colegas caçoando dele no recreio, ele encara rebeldes e exércitos nazistas (you know, no big deal). Acho que minha principal razão para gostar do livro foi o modo de Benioff escrever, ágil e com humor (eu li em algum lugar alguém chamar Kolya de Pernalonga e achei maravilhoso!). Além disso ler sobre todos os perrengues que as pessoas passavam (e ainda passam) durante a guerra deixa sempre uma sensação de agradecimento, mesmo com todos os problemas que temos aqui.

Como não poderia deixar de ser a receita da vez é de… ovos! Duh. Eu adoro ovos. Ovos são aqueles itens de emergência que resolvem a vida quando você esqueceu de ir ao mercado e não tem mais na geladeira. Por isso aqui vai uma receitinha caprichada na gema: fritada.

Fritada com aspargos para facilitar a vida

Ingredientes:

  • Aspargos verdes
  • 80ml de azeite
  • 1 xícara de folhas de espinafre
  • 1 cebola roxa
  • 2 batatas médias cortadas finas
  • 6 ovos grandes
  • 1 colher de sopa de coentro
  • 1 colher de chá de cominho
  • sal e pimenta do reino a gosto

Preparo:

  1. Corte os aspargos, a cebola e as batatas (estas últimas em rodelas de mais ou menos 3 mm).
  2. Refogue a cebola em uma frigideira de fundo grosso, até ela ficar macia. Adicione as batatas e cozinhe por uns 10 minutos em fogo médio.
  3. Adicione os aspargos e o espinafre às batatas e deixe cozinhar por alguns minutos.
  4. Quebre os ovos, cada um separadamente, porque vai que algum deles não está bom. Coloque todos em uma tigela pequena e bata bem com um garfo ou um fouet.
  5. Tempere com sal e pimenta do reino a gosto a mistura de ovos. Adicione o cominho e mexa.
  6. Organize as batatas no fundo da frigideira até formar uma cama de batatas. Despeje por cima a mistura de ovos.
  7. Deixe cozinhar tampado em fogo médio por 8-10 minutos.
  8. Se achar necessário coloque no foorno por 4 minutos.

 

Igual, só que diferente

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O livro dessa semana é do tipo emocionante, sabe risadas e lágrimas. “A Resposta” ou em inglês, “The Help” (acho que já que não dava para ter o trocadilho do nome original, eles simplesmente preferiram trocar) conta a história de Skeeter, uma jornalista progressiva,  e Aibileen, uma doméstica na mesma cidade de Jackson, no Mississipi de 1960, no interior dos EUA.

Skeeter, diferentemente de suas amigas, foi para faculdade e se formou em jornalismo. Não está com pressa para casar (ela se acha pouco atraente e tem síndrome de Elba Ramalho -quem nunca?) e quando volta para casa quer saber onde está a empregada que trabalhou com seus pais a vida toda e ajudou a criá-la, Constantine.

Skeeter, que amava Constantine, fica horrorizada um dia quando Hilly, a líder do seu grupo de amigas (e o anti-cristo disfarçado), anuncia o projeto de banheiros separados para negros e brancos. Skeeter então tem a idéia de escrever um livro sobre o relacionamento entre as domésticas e seus empregadores, sobre como crianças que foram criadas por domésticas negras crescem para terem (ou não) os mesmos preconceitos dos pais. Ela convence Aibileen e Minny, a melhor amiga de Aibileen e empregada de Hilly, a ajudá-la no projeto. As tortas de Minny são famosas na cidade e seus dotes culinários são de dar água na boca.

O livro é cheio de amizades improváveis, de erros que se tornam acertos e de questionamentos sobre preconceito, amor e fé. As palavras que Aibileen ensina ao bebê branco de que cuida “You is kind, you is smart, you is important”, são o mantra que resume a moral do livro e demonstram que as vezes conhecimento não é inteligência, mas que o amor é capaz de transcender mesmo as barreiras mais arraigadas.

“A Resposta” virou filme e Octavia Spencer (Minny) ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante, porque ela está mesmo fantástica, o filme porém se chama “Histórias Cruzadas” (sabe-se lá por quê). O filme é ótimo, mas como quase sempre eu prefiro o livro.

E por mais que possa parecer contraditório para quem leu o livro, esse livro me deu muita vontade de torta. Aí lembrei dessa torta rústica de pêssego, que é uma delícia e não é difícil de fazer. Uma torta meio erradinha, com um quê de fora da lei, mas que no final fica uma delícia. Ou seja, tudo a ver com “A Resposta”.

Torta Rústica de Pêssego com Tequila (serve 4 pessoas)

Ingredientes:

  • Para a massa:
  • 1 xícara e meia de farinha
  • 125g de manteiga
  • 1 colher de sopa de maizena
  • 1 colher de chá de sal marinho
  • 1 ovo
  • 1 colher de sopa de vinagre de maçã
  • 1 colher de sopa de água gelada
  • Para o recheio:
  • 2 colheres de sopa de tequila
  • 1 colher de sopa de suco de limão fresco
  • 1 colher de chá de raspas de limão
  • 1 colher de sopa de maizena
  • 2 pêssegos maduros
  • 2 colheres de sopa de açúcar mascavo
  • 1 colher de chá de creme de leite fresco

Preparo:

  1. Combine a farinha, o maizena e o sal no processador de alimentos.
  2. Corte a manteiga em cubos de meio centímetro, coloque sobre a farinha e pulse algumas vezes.
  3. Numa tigela pequena, mexa juntos o ovo, vinagre, a água e metade do açúcar. Despeje a mistura no processador e pulse algumas vezes. A massa deve ficar com aparência meio pedaçuda.
  4. Uma vez que a mistura líquida tenha sido incorporada, retire a massa do processador. Misture com as mãos e se a massa estiver uniforme (se a massa não estiver uniforme, coloque um pouco mais de água e mexa mais)., faça um disco e embrulhe com plástico. Deixe descansar por pelo menos 30 minutos.
  5. Junte a tequila, o suco de limão e o maizena em uma tigela pequena. Misture.
  6. Pré-aqueça o forno a 210 graus. (É importante o forno estar bem quente, pois isso que faz com a massa fique crocante).
  7. Retire a massa da geladeira e abra a massa com um rolo até com que ela fique com 0,5 cm de altura.
  8. Coloque a massa sobre um papel próprio para assar, sobre a assadeira que você irá utilizar.
  9. Arrume os pêssegos sobre a massa de um jeito bonito, mas lembre de deixar pelo menos 4cm para fechar por cima do recheio. Depois de arrumar os pêssegos feche a torta com os dedos, com cuidado para que as frutas fiquem seguras dentro da massa.
  10. Por cima espalhe o creme de leite e depois polvilhe com o restante do açúcar. Adicione as raspas de limão. Deixe esfriar na geladeira por 15 minutos.
  11. Asse por 45 minutos, até 1 hora se achar necessário (varia de forno pra forno). Retire do forno quando a massa estiver dourada. (Se você achar que a massa está assando rápido demais diminua a temperatura para 180 graus).
  12. Deixe esfriar por pelo menos 1 hora antes de servir, mas depois manda brasa!

Gostinho de infância

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“We’re all completely beside ourselves” da Karen Joy Fowler é um livro estranho. Se ele é estranho bom, ou estranho ruim deve depender do leitor, mas no meu caso achei estranho bom. No começo do livro, fiquei um pouco irritada com a narradora, Rosemary. Ela é meio enigmática e, como ela mesma confessa, pouco confiável. Mas depois de um tempo, entrei no clima e comecei a curtir justamente o não saber que antes achava irritante. Assim como Rosemary, você fica tentando descobrir as coisas, tentando entender (mesmo que o entendimento completo não seja possível).

O livro conta a história de Rosemary e sua família, principalmente focando no relacionamento entre Rosemary, seu irmão Lowell e sua irmã adotiva Fern. E o que acontece quando um dia Fern simplesmente “desaparece”. Não quero estragar surpresas para ninguém então, quem não quiser pule a próxima frase. Continuar lendo

As lentilhas do Inspetor Espinosa

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Hoje o livro é um clássico nacional, “O silêncio da chuva”, de Luiz Alfredo Garcia-Roza. Esse livro apresenta o personagem do Inspetor Espinosa, um investigador peculiar que trabalha na 1ª DP e mora sozinho no Bairro Peixoto, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

No livro, Espinosa investiga a morte de Ricardo Carvalho, um conhecido empresário encontrado morto no seu carro dentro de um edifício-garagem no centro do Rio. No decorrer da investigação, Espinosa encontra Bia, a viúva, Júlio, um professor, Alba, dona de academia e Rose, a secretária do morto. As conexões são complexas e o clima noir é maravilhosamente bem construído. Se você gosta de suspense, vai curtir com certeza. Eu me lembro que eu não consegui dormir antes de terminar, simplesmente não podia não ler a próxima página, o próximo capítulo. Acho que isso vai acontecer com você também. Então não comece a ler se estiver com um monte de coisas para fazer (conselho de amigo).

Eu sou tão fã do Inspetor Espinosa, que todas as vezes que eu passo perto do bairro Peixoto ou Copacabana, já imagino ele andando por ali, cabeça fervilhando tentando destrinchar mais um mistério. O que me fascina nos livros do Garcia-Roza é como cada personagem é cheio de camadas, existe um cuidado e um entendimento da natureza humana que deve vir da sua formação em psicologia. Eu adoro as idiossincracias que formam Espinosa (que depois se torna delegado), sua estante de livros que é feita de livros, seu relacionamento com Irene, suas rotinas gastrônomicas, que incluem lasanha congelada, jantares na Trattoria e idas frequentes ao restaurante árabe na galeria Menescal. Também adoro o detetive Welber, parceirão do Espinosa, como vocês vão ver.

Depois de ler esse primeiro, você já era! Vai ter que ler o resto: “Vento Sudoeste”, “Uma janela em Copacabana”, “Céu de Origamis”… De certa forma, fico até com inveja de quem vai ler esses livros pela primeira vez; são todos tão bons! Mas é uma inveja boa, tá?

As idas de Espinosa ao árabe de Copa, inspiraram a receita de hoje. Uma receita tão molezinha que nem o Espinosa ia ficar com preguiça: salada de lentilha. Essa salada é um curinga, fica pronta rápido e é bem fácil de fazer. Eu gosto de ter os ingredientes para ela em casa, porque se um dia não tiver plano A, o plano B já tá na mão. Sem mistérios (mas com trocadilho! rsrs).

Salada de Lentilhas para o Inspetor Espinosa (serve 6 pessoas)

Ingredientes:

  • 2 xícaras de lentilha
  • 1,5 litros de água
  • 150g de nozes pecan assadas
  • 75g de presunto de parma ou lombinho defumado
  • 1 cebola roxa ou pérola grande (eu prefiro com a roxa, mas é pessoal)
  • 1/2 xícara de salsinha
  • 1/2 xícara de hortelã fresca
  • vinagre de vinho branco
  • 2 colheres de chá de açúcar mascavo
  • azeite, sal e pimenta do reino

Preparo:

  1. Coloque a lentilha e a água em uma panela e leve ao fogo alto. Quando ferver, abaixe o fogo e deixe cozinhar por mais 15 minutos. Retire do fogo e escorra bem em uma peneira.
  2. Enquanto as lentilhas cozinham, descasque a cebola e corte em rodelas. Refogue em uma frigideira com azeite, sal e pimenta. Reserve.
  3. Pique as nozes, a salsinha e a hortelã. Reserve também.
  4. Corte o presunto de parma em partes menores, mas não muito pequenas.
  5. Pegue a travessa em que você irá servir e coloque as lentilhas ainda mornas. Adicione o vinagre, o açúcar e tempere com azeite, sal e pimenta do reino. Misture bem.
  6. Adicione as cebolas, o presunto, as nozes e por último a salsinha e a hortelã. Misture bem.

Pronto! Se você quiser servir como opção vegetariana é só não colocar o presunto, fica bom também 😉

PS: A ilustração de hoje é uma estampinha de pavão, misterioso como o livro (rsrs). Resolvi mudar um pouco. Gostaram?