A cárie oculta

Quando você vai ao dentista, é um ato de fé. Nos dias antes da consulta você escova os dentes religiosamente, o fio dental se torna sagrado e quem sabe até você se lembre do seu anti-placas escondido no cantinho da pia. Mas mesmo com tudo isso, você ainda vai rezando pelo caminho.

A cadeira do dentista é aquele confessionário às inversas: ali só quem fala é o padre, o pecador (você, arrependido daquele brigadeiro sorrateiro ou do doce de leite do final de semana) deve aguentar in loco as punições dos seus pecados. Meia hora de aves-maria para compensar os excessos dos almoços de domingo.

Essa semana fui à dentista, uma dessas rotineiras visitas expurgatórias, que dessa vez eu estava até ansiosa para ir pois estava sentindo como se meus dentes estivessem meio empoeirados, como que guardados no fundo do armário, e queria de volta aquela sensação de dente lisinho, aquele bem-estar de quando passamos Poliflor em mesa de madeira.

Mas eis que estou ali, naquela posição vulnerável, boca à mercê alheia, sem poder dar um pio, prova duríssima para tagarelas de estirpe como eu, e então minha dentista, diz: “olha, eu acho que você tem uma cárie oculta. Que interessante! Pode ser que não seja, é uma coisa meio rara, mas acho que é. Vou te mostrar aqui.”

Então já digo logo “é, com certeza, é”. Porque se tem uma parada rara que eu vou ter é cárie. Porque em toda e qualquer loja que eu entre eu tenho o talento de escolher a roupa mais cara de primeira, a habilidade de pegar logo o pão de queijo velho e o quibe sem recheio, então se alguém me disser que eu tenho uma cárie rara, eu digo logo que é claro. Se disser que é também uma cárie oculta, que ficou ali quietinha só contando os chocolates de final de noite sem dar pinta para ninguém, então aí é que eu grito “Bingo!” mesmo.

Mas o que conta, o que vale de verdade mesmo, é que eu também tenho a dentista que diz: a gente resolve agora e aí você não vai ter dor de cabeça no futuro. E é aí que a fé compensa, não é mesmo?

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Reféns

O Theo completou sete meses e finalmente acho que não sou mais refém do neném. Ninguém te avisa que o neném vai sequestrar você. Todo mundo fala que você nunca mais vai dormir como antes (verdade), que você vai ter uma vida completamente diferente (também verdade) e que todo mundo vai te dar mil conselhos (com a gente foi bem tranquilo isso), mas ninguém avisou: olha, você vai ser refém do neném. Ele vai sequestrar vocês e vocês vão ficar meses em clausura, aonde uma visita até a pediatra é o auge da liberdade. E vai rolar uma síndrome de Estocolmo sinistra porque você só vai pensar em fralda, leite e cocô. Talvez, inclusive, você comemore cocô. É isso mesmo, queridona, você que antes era fresca agora aguarda ansiosa o momento do cocozão: você torce por ele e quando ele não vem, fica angustiada. Quem te viu, quem te vê.

E estou falando isso porque eu tenho uma situação maravilhosa, hein? Marido que é parceirão, família pertinho que tá sempre querendo ajudar, assistência de alto nível com o pessoal que trabalha aqui em casa e amigos que, quando podem, comparecem. Imagino quem não tem nada disso, ou mesmo quem só tem uma parte: como vocês fazem? Vocês são meus heróis e heroínas. Que mágica vocês possuem? Para você que fica todo o dia, o dia inteiro, sozinha com seu filho, meus parabéns. Para você que está um pouco atrás de mim, naquele comecinho em que dias e noites se embolam em uma coisa só, engrosso o coro do mantra “tudo passa”. Inclusive os momentos mais legais, então aproveita. E tira fotos, porque passa rápido.

O post esquecido

Gente, eu consegui parar um pouquinho na minha rotina mãe 🙂 (êeee, o Theo nasceu e está lindo, fofo, gostosíssimo) e ia escrever um pouquinho de um post novo aqui pro blog quando encontrei esse post esquecido :0 E esse livro é tão, tão legal, que resolvi postar! O post novo fica prometido para em breve com mais noticias do meu fofolindo. Um beijo!

“Toda a luz que não podemos ver” do Anthony Doerr estava na minha lista de leituras há séculos e, gente, depois que eu comecei fiquei totalmente obcecada e me perguntando porque não tinha começado antes. O livro, que conta a história de Marie Laure, uma menina francesa cega, e Werner, um órfão alemão, antes, durante e um pouco depois da Segunda Guerra Mundial é uma leitura deliciosa.

Marie-Laure é filha de um chaveiro que trabalha no Museu de História Natural de Paris. Seu pai, Daniel LeBlanc, é também um artesão de mão cheia e produz para a filha uma miniatura minuciosa do bairro em que moram para que a filha possa aprender a andar pela redondeza sozinha. Mais tarde, quando pai e filha vão a Saint-Malo, ele faz o mesmo com a nova cidade, sempre tentando possibilitar um pouco de segurança para a filha. O relacionamento entre os dois é uma das partes tocantes do livro, assim como as relações que a menina estabelece em Saint-Malo com seu tio-avô Etienne e com Madame Manec -retratos sensíveis e cheios de sutileza.

Werner e sua irmã Jutta crescem em um orfanato e desde cedo fica claro que os dois têm uma inteligência fora da curva, o que se torna mais evidente após os irmãos encontrarem um rádio e Werner ficar fascinado por seu funcionamento e mecanismos. Em certo momento, o talento do menino para engenharia, uma tecnologia essencial na guerra, o levam para dentro do exército alemão na tentativa de escapar um futuro aterrador como um operário de minas, deixando para trás sua irmã. Werner é um menino brilhante e sensível, nenhum pouco o retrato padrão do soldado nazista (esse papel deixamos com o “vilão” do livro, o Sargento-Mor Von Rupkel) e sua narrativa é rica em questionamentos e um amadurecimento acelerado pelo cenário da guerra.

Eu, imagino que assim como todos que leram, fiquei aguardando ansiosamente o momento em que as duas histórias, a de Werner e a de Marie-Laure, fossem se cruzar e devo dizer que apesar de toda a expectativa, o encontro não decepcionou. Esse livro é lindo, gente! Não à toa ganhou o Pulitzer: seus capítulos são curtos mas tão cheios de detalhes, os personagens tratados com tanta delicadeza que vamos nos apaixonando por eles. Aviso aqui: esse livro tem 528 páginas e eu li em menos de uma semana, ou seja, se prepare para o vício!

Na história, Marie-Laure é apaixonada por comida: suas descrições das iguarias que come são maravilhosas! Me marcou especialmente quando ela descreve comer pêssegos em calda e por isso a receita dessa semana não poderia deixar de contê-los: mini panquecas de pêssegos em calda com ricota.


Mini panquecas de ricota para Marie-Laure (faz aproximadamente 20 discos pequenos)

Ingredientes:

  • Massa:
  • 1 xícara (chá) de farinha de trigo
  • 1 pitada de sal
  • 2 ovos
  • 1 ¼ de xícara de chá de leite
  • ⅓ de xícara chá de creme de leite fresco
  • 1 colher de sopa de açúcar
  • óleo para untar

 

  • Recheio:
  • 100g de ricota de boa qualidade
  • 3 metades de pêssegos em calda cortados pequenininhos

 

  • Calda de açúcar:
  • 3 colheres de sopa de açúcar refinado
  • 3 colheres de sopa de água
  • raspas de limãoModo de preparo:
  1. Numa tigela, coloque todo os ingredientes da massa, menos as raspas de limão, e misture bem com um fouet (batedor de arame), até que a massa fique lisinha. Deixe descansar por 1 hora, fora da geladeira.
  2. Aqueça uma frigideira antiaderente, de fundo grosso, de cerca de 22 cm de diâmetro, e espalhe um pouquinho de óleo com um pincel ou papel-toalha dobrado, para não queimar os dedos.
  3. Dê uma boa mexida na massa e misture os opcionais que quiser usar. Com uma mão, levante a frigideira e com a outra, regue a massa com uma concha. Faça um movimento circular com a frigideira de modo a cobrir todo o fundo. Coloque a frigideira sobre o fogo baixo e, quando as bolhas começarem a aparecer, com auxílio de uma espátula de borracha, vire a massa para dourar do outro lado. O processo todo leva menos de 3 minutos por disco. Transfira a panquequinha para um prato, espalhe mais um pouquinho de óleo e repita o procedimento, até terminar a massa.
  4. Recheie com uma colher de sobremesa rasa de ricota e os pêssegos cortados e enrole com os dedos.
  5. Para fazer a calda: numa panelinha, misture o açúcar, a água e o conhaque e leve ao fogo médio. Quando ferver, deixe cozinhar por 1 minuto, até que o açúcar tenha dissolvido. Desligue o fogo e deixe esfriar. Por último, jogue por cima as raspas de limão e misture gentilmente. Jogue por cima das panquequinhas.

Eu e a barriga

Amigos da Cozinha Literária,

este post é em parte pedido de desculpas, em parte explicação, em parte comemoração. Explico; não tenho escrito aqui e fico me sentindo em falta com todo mundo que lê e que apoia esse projeto tão querido. A falta de posts não aconteceu à toa: estou no final da gravidez e vou contar para vocês que esse moleque que vai nascer não me deu refresco até agora 😉

Estamos muito felizes com a chegada do pequeno (qualquer dia agora!), mas até hoje continuo enjoando e, por isso mesmo, pensar em comida, fazer comida e escrever sobre comida se tornaram tarefas no começo árduas, depois impossíveis. Pela primeira vez na vida, se eu pudesse trocaria iguarias maravilhosas por pílulas de astronauta – logo eu, que sempre adorei uma boa comilança! Bem que dizem que a maternidade muda as pessoas.

Quis escrever aqui porque estava com saudade e também para dizer que o blog continua -não sei exatamente quando, mas continua. Quem sabe no próximo post já venho com as papinhas! Me desejem (e para esse mini-humano que vem aí) sorte ❤

um beijo para todos,

Carol

a vida invisível de Eurídice Gusmão

Existem pessoas geniais por aí, sabe aqueles seres alienígenas que entendem cálculo de primeira, aprendem qualquer lingua como se tivessem engolido um dicionário e que ao se aplicarem em qualquer coisa são imediatamente brilhantes nela. A personagem principal de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, da Martha Batalha, é uma dessas pessoas míticas -ela é um gênio, mas ninguém sabe. Agora você quer ler, não é?

A história de Eurídice começa com seu casamento nos anos 30. Ela, uma moça quieta que vive mais dentro de si mesma do que fora, é escolhida por Antenor por ser um exemplo de boa moça e aceita porque não, não é mesmo? Mas Eurídice não é só uma boa moça, Eurídice poderia resolver a crise do Oriente Médio se lhe dessem ouvidos e colocar nos conformes a economia brasileira, se por acaso não tivesse nascido mulher no Brasil do começo do século XX. Nessa trama interessante, Batalha trata seus personagens com carinho: cada um deles, de sua heroína à empregada da mesma que só aparece raramente, salta da página para cumprimentar o leitor. Como é fácil imaginar Guida, Antenor, Marcos e todos os outros! Esse é o talento da autora e o grande trunfo do livro, na minha opinião.

Eurídice é uma personagem que está vivendo na época errada. Para todos a sua volta, lugar de mulher é em casa, barriga no fogão, um olho nos filhos e outro na novela. E ela, tão cheia de potencial e ideias, aceita esse lugar hierarquico e abre mão do que a sua vida poderia ter sido. Quantos mulheres não devem ter passado, e ainda passam, por isso? É incrível pensar o quanto a história do mundo poderia ser diferente se o movimento feminista tivesse ocorrido antes, ou ainda melhor, se nós, como sociedade não precisássemos de um movimento em prol da igualdade pois ela seria “par for the course”. Mas o mundo que temos é esse mesmo, então, vamos lá meninas e mulheres: GIRL POWER! Vamos em frente suando a camisa para alcançar nossos sonhos, uma apoiando a outra, sempre 🙂

Em certa parte do livro, Eurídice se dedica à culinária e, como em tudo, se sai de forma excelente. Porém seus verdadeiros banquetes passam em branco no seu pequeno reino doméstico e, sem apreciação ou incentivo, logo ela se dedica a novos interesses. Eu me identifiquei com ela nesse momento: também foi logo depois de casar que eu quis aprender a cozinhar de verdade (algo além de miojos, ovos fritos e panelas de brigadeiro) e também para mim senti um mundo novo e fascinante se abrir. Confesso que nunca cheguei ao nível de proficiência da Sra Gusmão, mas de fome a gente não morre mais! Lembrei aqui, óbvio, de um dos primeiros pratos que eu aprendi a fazer: uma receita de linguado no forno do Jamie Oliver que, apesar de super simples, é lindo e faz a maior vista à mesa. Meu marido na época me achou Masterchef! rsrs

Aqui também vai mais uma confissão: esse post está escondido há meses, esperando uma oportunidade de ver a luz do dia. Acho que eu comecei a escrevê-lo em Fevereiro porque queria postar em Março e desde então me enrolei e neca de postar coisa por aqui! (alooou pra vc que também tem filho pequeno e entende a enrolação da pessoa aqui ;p )

Linguado para pagar de Eurídice (serve até 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 4 filés de linguado já limpos
  • 2 a 3 limões sicilianos
  • um punhado de endro
  • Um pote de iogurte natural
  • azeite, sal e pimenta do reino a gosto

Modo de Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 180 graus e escolha uma travessa que acomode bem os filés de linguado.
  2. Tempere os filés de peixe com sal, azeite e pimenta e disponha na travessa. Coloque um pouco de endro por cima do peixe (não exagere que o gosto é marcante).
  3. Corte dois dos limões em rodelas de 0,5 centímetro e arrume as rodelas por cima dos filés uniformemente. Coloque para assar no forno por 22 minutos.
  4. Enquanto o peixe assa, coloque o iogurte natural no pote em que for servir o molho, então tempere com o endro, sal, azeite e pimenta. Adicione um pouco de suco de limão na hora de servir.

 

A vida invisível de Eurídice Gusmão
Capa comum: 176 páginas
Autor: Martha Batalha
Editora: Companhia das Letras; Edição: 1 (20 de abril de 2016)

Mulher maravilha

“Hibisco Roxo” da Chimamanda Ngozi Adichie é um desses livros que são difíceis de ler, mas não porque não é bom, mas porque a temática é tão densa que você fica carregando o livro com você o tempo todo. Eu demorei quase o dobro do tempo normal para ler porque parava as vezes (e falava sozinha!) e ficava pensando nessa outra realidade que existe -tão distante ali do lado, na Nigéria. Quantas vezes a gente lê um livro que nos faz encarar o quanto somos privilegiados, e também o quanto outras culturas podem nos oferecer que nós nunca sonhamos? Foi assim ler esse livro.

“Hibisco Roxo” é a história de Kambili, uma menina nigeriana que é rica, estuda em uma escola particular e de família fervorosamente católica. Do lado de fora, todos a vêem como uma menina privilegiada,  mas a realidade dentro de sua mansão é bem diferente: o pai é um fanático religioso abusivo, que pela menor transgressão, real ou imaginária, agride a mulher e os filhos. É impactante ler as monstruosidades que esse pai comete, e ao mesmo tempo Adichie consegue criar um personagem complexo, que tem virtudes também. No começo da narrativa, Kambili é tímida, e dado o cenário de terror que vive e que não deve ser descoberto por ninguém fora de sua família imediata, e solitária, só contando com a companhia do irmão, Jaja, e da mãe. A menina tem medo até dos próprios pensamentos. Mas a entrada de sua tia, Ifeoma, e seus primos, Amaka e Ibiora, de forma mais abrangente nas vidas dela e do irmão, traz grandes mudanças -ajuda os irmãos a verem novas possibilidades, e a começarem a se formar como pessoas independentes. A autora não coloca panos quentes em nada: a situação política e educacional da Nigéria também estão presentes na história e são tratadas com tanta clareza quanto o abuso sofrido pela família de Kambili.

Apesar de ainda ser cedo para dizer, acho que esse é um dos livros mais importantes que li em 2017, por várias razões, mas principalmente porque me deixou com vontade, aquele foguinho que nasce dentro do peito, de fazer alguma coisa de verdade para ajudar a mudar o mundo: o quê ainda não sei, mas sei que vai ficar comigo isso e que não vou deixar ir embora e vou procurar onde posso contribuir, por menor que seja esse papel. Depois de ler “Hibisco Roxo“, assisti a palestra que Chimamanda Ngozi Adichie deu no TED sobre feminismo, um assunto no qual é ativista, essa sua palestra foi transformada em um manifesto –“Sejamos todos feministas”, que se tornou amplamente divulgado e conhecido (ainda não li, mas pretendo. Vamos?). Esse foi um dos motivos pelo qual quis falar desse livro esse mês, no qual celebramos o Dia Internacional da Mulher, porque nós como mulheres muitas vezes aceitamos as normas sociais vigentes como algo imutável, nós as vezes nos oprimimos umas às outras sem saber o que há por trás de nossas fachadas brilhantes do Instagram e das nossos reluzentes posts no Facebook. E quanto mais privilegiadas, mais longínqua a necessidade de questionar, de trazer para perto essas coisas incômodas como preconceitos e olhar de frente para elas. Vamos parar com isso, sejamos feministas, e mais, sejamos humanos!

Aqui no blog, todo livro tem uma receita e confesso que sofri um pouco ao pensar em comer as receitas que aparecem no livro -realmente não é o tipo de comida que eu curto, então segue aqui uma adaptação do fufu africano: bolinhos de batata doce. Façam junto com seus filhos e maridos, comam conversando e, sugestão controversa, dessa vez, deixe a louça para os meninos.

Bolinhos de Batata Doce para Kambili (serve até 4 pessoas)

Ingredientes:

  • 300g de batata doce cozida e amassada
  • 100 g de farinha de trigo com fermento
  • 1 pitada de sal
  • Salsa, cebolinha e cebola
  • 1 ovo
  • Óleo para fritar

Modo de Preparo:

  1. Misture os ingredientes em uma tigela, por último a farinha de trigo.
  2. Faça bolinhos com esta massa modelando com 2 colheres.
  3. Aqueça o óleo em fogo médio, quando estiver quente, jogue os bolinhos e frite até que fiquem dourados por fora.
  4. Coloque em uma travessa forrada com papel toalha para drenar a gordura excedente.
  5. Sirva quentinho!

OBS: Deve ficar gostoso misturar na massa um queijo ou uma calabresa picadinha! Da próxima vez, vou experimentar.

Com a galera

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Nem todo livro a gente começa adorando, e comigo e “Fim”, da Fernanda Torres, foi assim, um começo ressabiado, mas ao longo da história fui me convencendo, até que, ironicamente, o fim foi que fez curtir o livro.

O livro conta a história de cinco amigos cariocas da gema, Álvaro, Silvio, Ribeiro, Neto e Ciro, mas não se mantém a só eles, pois toca também a vida das mulheres que fizeram parte da vida dele -suas mulheres, namoradas, amantes. Cada capítulo é narrado por um personagem (com ocasionais inserções do narrador em terceira pessoa), e as vozes de cada um é muito bem desenvolvida pela autora, tanto que o primeiro capítulo narrado pelo ranzinza Álvaro foi justamente o começo meio árido para mim.

As histórias dos amigos se entrelaçam ao longo do livro e vão construindo um caleidoscópio interessante da vida dos cinco, e o bacana do livro é justamente essa variação esperta da autora na perspectiva que cada personagem tem dos acontecimentos. O que, para mim, é a riqueza do livro é capacidade de Torres de tornar os eventos corriqueiros complexos, nos dando cinco versões daquele mesmo evento; assim uma festa com os amigos é onde um encontra o amor, o outro perde a chance com a mulher dos seus sonhos e outro deixa de lado as inibições. Os personagens são bem construídos e verídicos, fogem bem do clichê do malandro carioca, e trazem insights do ego masculino surpreendentes para uma mulher (eu nunca teria sido capaz!).

Ao ler “Fim” pensei que o seu par ideal seria um tradicional pacote de biscoito “Globo”, já que a praia tem destaque na narrativa. Mas como não faço ideia de como fazer um biscoito desse (gente, alguém sabe?!) então quis fazer um biscoitinho salgado (igual a água do mar) e rapidinho, ideal para servir quando os amigos vierem visitar. Então, voilá, Grissinis de Parmesão.

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Grissini para os amigos 

Ingredientes:

  • um pacote de massa folhada
  • 50g de queijo parmesão ralado fino
  • 1 gema
  • ervas finas
  • sal e pimenta a gosto

Modo de Preparo:

  1. Pré-aqueça o forno a 200 graus.
  2. Abra a massa folhada com o rolo, até que a massa fique da metade da espessura inicial.
  3. Corte a massa em tiras finas de mais ou menos 1,5cm.
  4. Pincele a massa por inteiro com a gema.
  5. Jogue por cima da massa as ervas finas, o sal e a pimenta, e parte do parmesão ralado.
  6. Torça a massa com cuidado para deixar o lado pincelado de gema para fora.
  7. Coloque os grissinis em uma assadeira forrada com papel para cozinhar e asse durante 15 minutos ou até dourar (é importante ficar de olho para não queimar!).